Reflexão nascida no nosso grupo de estudos do Livro do Céu
Há frases que atravessam os séculos porque tocam alguma ferida que todos carregamos. Oscar Wilde deixou uma delas numa peça de teatro de 1892, O Leque de Lady Windermere: o cínico é aquele que sabe o preço de tudo e o valor de nada.
Numa manhã de conversa no nosso grupo, essa frase caiu como uma pedra no lago. E os círculos que ela abriu foram chegando cada vez mais perto do coração: primeiro Judas, depois o mundo, depois as nossas casas, e por fim nós mesmas.
Este texto é uma tentativa de recolher o que ali se partilhou e de olhar tudo isso à luz da Divina Vontade.
Preço e valor
Preço é o que se paga. É número, etiqueta, o que está escrito na vitrine. É fácil de saber, basta perguntar.
Valor é outra coisa. É o que aquilo vale de verdade para a vida. O valor é invisível e não se lê: só se reconhece.
Quem sabe o preço de tudo e o valor de nada sabe quanto custa uma academia, mas não entende o valor de ter saúde para brincar com quem ama. Sabe quanto custa uma bolsa de marca, mas não conhece o valor de sentir-se suficiente sem precisar provar nada a ninguém. Sabe quantos quilos faltam para o peso ideal, mas não sabe olhar-se no espelho com respeito no meio do caminho.
No fundo, essa pessoa confunde ter com ser. Mede tudo por fora: quanto pagou, quanto ganhou, quanto pesa, quanto rende. E não consegue responder às únicas perguntas que importam: isso me fez melhor? Isso me deu paz? Isso me aproximou de alguém?
Uma refeição simples, feita com calma e comida com gratidão, pode valer mais do que um jantar caríssimo engolido com ansiedade e culpa. O preço é o que sai do bolso. O valor é o que entra na alma.
Judas, o homem que fez a conta
A tradição cristã costuma ligar essa frase a Judas Iscariotes, e a aplicação é certeira. Judas sabia exatamente o preço de Jesus: trinta moedas de prata (Mt 26,15). Negociou, contou, fechou o acordo. Mas não soube o valor de quem estava entregando. Trocou o Infinito por uma quantia.
Há uma cena no Evangelho que o revela antes da traição. Maria derrama sobre os pés de Jesus um perfume precioso, e a casa inteira se enche do aroma. Judas não sente o perfume: faz a conta. Aquilo podia ter sido vendido por trezentos denários (Jo 12,3-5). Diante de um gesto de amor puro, ele só consegue enxergar o que foi desperdiçado.
Judas andou três anos ao lado de Jesus. Viu milagres, ouviu parábolas, partiu o pão com Ele. Mas parece nunca ter entrado de verdade: ficou à margem, calculando. Medir era mais seguro do que amar, porque amar exigiria mudar de vida.
E o fim é o mais trágico. Quando Judas volta ao Templo para devolver as moedas, ninguém as quer (Mt 27,3-5). Aquele preço que parecia valer tudo, de repente, não vale nada. E ele já não tinha para onde ir, porque tinha vendido justamente o Único que conhecia o seu valor.
Uma de nós disse, em voz baixa: é triste. E é mesmo. Talvez seja raro alguém ter pena de Judas em vez de apenas julgá-lo. Mas essa compaixão já é um sinal de que se está olhando para o valor, e não só para o preço.
Ninguém nasce assim
Ninguém nasce contador de tudo. A pessoa se torna assim, quase sempre, porque aprendeu a se proteger medindo.
Às vezes ela mesma foi tratada por preço. Cresceu sendo amada quando tirava nota boa, quando era bonita, quando não dava trabalho. Aprendeu, sem que ninguém dissesse com palavras, que só tem valor quando rende. E passa a fazer o mesmo com os outros.
Às vezes é medo. O preço é controlável: compara-se, pechincha-se, calcula-se. O valor não. O valor exige entrega, vínculo, vulnerabilidade. E vincular-se pode doer. Por isso ficar no preço parece mais seguro.
E às vezes é o ambiente. Vivemos cercados de lugares que só premiam o preço. As redes sociais, o trabalho e, às vezes, até a família perguntam: quanto você pagou? Quantos quilos perdeu? Quanto ganha? Quase ninguém pergunta: isso te fez bem?
Imagine uma criança criada assim. Ela chega da escola e ouve: o que você produziu hoje? Conseguiu montar o quebra-cabeça? Só recebe o sorriso do pai quando prova o seu valor pelo resultado. Essa criança cresce acreditando que, por si mesma, não vale nada. Torna-se o jovem que pensa: tenho dinheiro para levar a namorada para jantar, então tenho valor e tenho futuro. E aquele que não tem dinheiro? Não vale nada, pelo simples fato de ser quem é?
Quem só sabe o preço, no fundo, não é frio. Está faminto. Tem fome de ser amado de graça, sem precisar pagar. Mas admitir essa fome exige mostrar-se frágil, e por isso, dia após dia, volta a calcular, porque calcular distrai da pergunta que dói.
Tente, por um instante, entrar no coração dessa pessoa. Ela acorda, e o primeiro pensamento não é como eu estou?, mas o que eu preciso provar hoje? Antes mesmo de pôr os pés no chão, o dia já virou uma prova a ser vencida. E, como é assim que ela se olha no espelho, é também assim que olha para os outros: quanto essa pessoa vale? O que ela tem? O que ela conquistou?
Durante o dia, os números a mantêm ocupada. Mas à noite, quando se deita e o barulho cessa, chega um vazio que nenhum número preenche. Ela tem tudo precificado e nada amado. Sabe quanto custa a roupa, o carro, o corpo ideal, mas não consegue responder à pergunta que a assusta: quem me amaria se eu perdesse tudo isso?
Essa pergunta dá medo. Então, na manhã seguinte, ela volta a calcular, porque calcular distrai da pergunta que dói. No fundo, tem fome de ser amada de graça, sem precisar pagar nada. Mas admitir essa fome exigiria mostrar-se frágil.
Judas talvez tenha conhecido essa noite. Quando voltou ao Templo com as moedas e ninguém as quis receber, descobriu que o preço em que tinha apostado tudo já não valia nada. E, tendo vendido Aquele que sabia o seu valor, não encontrou mais para onde voltar.
Uma frase dita pela metade
Foi então que a conversa deixou de ser teoria.
Uma mãe do nosso grupo partilhou um diálogo que tinha acabado de ter com o filho. Ele contou que, muitas vezes, quando fazia algo bom ou tirava uma nota alta, ouvia em casa: não fez mais do que a sua obrigação. E disse com uma sinceridade que desarma: eu nunca me senti suficiente. Todo sucesso que eu tenho, sinto que foi só a minha obrigação. Não importa o quanto eu me esforce.
Ela explicou o que sempre quis ensinar: que ele não se gabasse, que fizesse o bem porque é o certo, e não para ser aplaudido. E isso é Evangelho puro. O próprio Jesus ensina: quando tiverdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer (Lc 17,10).
Mas o filho não ouviu humildade. Ouviu outra coisa: nada do que você faz é extraordinário; você nunca me surpreende. Ele não estava dizendo que a mãe mentiu. Estava dizendo: mãe, eu nunca senti o gosto de te deixar orgulhosa.
O que aconteceu depois foi o mais bonito da manhã inteira. Ela pediu perdão. E, logo em seguida, fez a pergunta de quem ama: meu filho disse que não sabe ver o valor. Como posso ajudá-lo?
Quando um filho consegue dizer à mãe eu não sei ver o meu valor, isso já é valor. Ele confiou nela o bastante para mostrar onde dói.
A frase inteira do Pai
Aquela mãe não estava errada no que ensinou. Apenas parou no meio da frase. E o Evangelho mostra como ela termina.
Jesus viveu como servo. Não buscou aplausos, e foi rejeitado pelos homens até a cruz. Mas o Pai não ficou em silêncio. No Jordão, antes de qualquer milagre, antes de qualquer pregação, antes de qualquer “resultado”, o céu se abriu e se ouviu: Este é o meu Filho amado, em quem pus a minha complacência (Mt 3,17).
O Pai uniu as duas coisas: a humildade diante dos homens e a alegria declarada de quem ama. Ele não disse este é o meu Filho, que cumpriu as metas. Disse amado, antes de tudo e sem condição.
Ensinar um filho a ser fiel sem esperar aplauso é a primeira metade da frase. A segunda é dizer, com todas as letras: eu vejo você, eu me alegro com você, você é meu filho amado. Não por causa da nota, mas porque ele é. Completar a frase não contradiz o Evangelho; é deixar que ele chegue inteiro.
Selar com amor
Aqui a conversa encontrou aquilo que temos estudado no Livro do Céu.
Nos escritos de Luisa Piccarreta, Jesus insiste que o valor de um ato não está no seu tamanho, nem no seu resultado, nem no aplauso que recebe, mas na Vontade dentro da qual é feito. Um gesto pequenino, feito no Querer Divino, torna-se imenso, porque é Deus mesmo quem o sustenta. Tantas vezes falamos, no grupo, de selar cada ato com o amor e de girar por dentro antes de agir, perguntando a quem aquele ato pertence.
Talvez esteja aí a chave para quem aprendeu a medir tudo por preço. O preço é o selo do mundo. O valor é o selo do amor.
O mundo carimba cada coisa com um número: a nota, o salário, o peso, os seguidores. Mas quem vive na Divina Vontade aprende outro carimbo. Lavar a louça, estudar para uma prova, ouvir um filho em silêncio: nada disso tem preço de mercado, e tudo pode ter valor infinito se for feito no Fiat.
E isso liberta. Se o valor de um ato vem do Amor em que ele é feito, então ninguém precisa provar que vale. Já vale, porque é amado. A criança que só se sente digna quando rende pode, enfim, descansar.
Ajudar um filho a ver o valor
Valor não se explica: se mostra. Um filho que não sabe ver o valor não precisa de sermão; precisa de um olhar treinado ao lado dele.
Trocar a pergunta. Quando ele perguntar quanto custou?, que nota eu tirei?, ganhei ou perdi?, podemos devolver com calma: e foi bom? Você gostou de fazer? Te deu paz? Assim ensinamos o coração a fazer outra conta.
Nomear o valor em voz alta. Esta comida simples que fizemos juntos vale mais para mim do que um restaurante caro, porque você está aqui. Ver você tentar de novo depois de errar tem um valor enorme.
Não negar o preço, mas pôr o valor ao lado. Não adianta dizer que dinheiro não importa, porque importa. Podemos dizer: isso custou tanto, e o que vivemos com isso não tem preço.
Pedir que ele nos ensine. Me conta uma coisa que você fez esta semana que não deu dinheiro, nem nota, nem curtida, mas te fez bem. E, quando ele encontrar, celebrar.
E, sobretudo, não ter pressa. Ele aprendeu a olhar para o preço porque o mundo ensinou. Desaprender leva tempo, e a graça trabalha devagar.
Presença que é chão
Na mesma conversa, surgiu a pergunta sobre o que é, afinal, ser um pai ou uma mãe presente.
Presença não é estar em todas as festas nem saber de tudo; isso pode ser apenas controle. Presença é fazer o outro sentir: eu não estou sozinho nisso, mesmo quando não conseguimos resolver nada.
É notar antes de ser chamado: perceber o filho calado demais no jantar e dizer, sem invadir, te senti para baixo hoje; quer me contar?
É ficar no desconforto sem fugir. Diante da nota baixa, do namoro que acabou, da besteira feita, os pais ausentes punem, ignoram ou dramatizam. Os presentes ficam. Participam da consequência, e não só do sucesso.
É ser previsível no amor. O filho sabe que, se contar que errou, será ouvido antes de ser corrigido, e corrigido sem ser humilhado. Essa segurança lhe dá coragem para trazer a vida para dentro de casa, em vez de escondê-la.
É também mostrar a própria humanidade: eu também tive esse medo na sua idade. E, quando for o caso, pedir perdão, como fez aquela mãe.
Pais presentes são como o chão. Não aparecem em todas as fotografias, mas sem eles ninguém consegue ficar de pé.
Consertar o nosso pedaço de mundo
Alguém do grupo lembrou ainda de um vídeo em que um jovem, desanimado com tanta coisa feia que via no mundo, dizia já não querer estar nele. O professor lhe respondeu mais ou menos assim: talvez Deus esteja permitindo que você veja o mundo tão torto para que você melhore ao menos o seu pedaço dele. Se você conseguir tornar um pouco melhor a vida de uma só pessoa, o mundo já estará melhor.
É a mesma lógica do valor. Não precisamos consertar tudo para que a nossa vida valha a pena. Um ato pequeno, feito com amor e dentro da Vontade de Deus, já muda a medida das coisas. Deus não nos pede que sejamos como vemos os outros sendo: chama-nos a ser melhores do que isso, um gesto de cada vez.
Para levar à oração
Deixamos algumas perguntas para rezar nesta semana:
- Em que coisas da minha vida eu sei o preço, mas ainda não enxergo o valor?
- Houve momentos em que eu medi alguém, talvez um filho, um marido, um amigo ou a mim mesma, pelo que produz, e não pelo que é?
- Existe alguma frase que eu disse pela metade e que ainda posso completar?
- Hoje, que ato pequeno eu posso fazer no Fiat, sabendo que o seu valor não depende de ninguém ver?
Que o Pai nos conceda ouvir, sobre nós mesmas e sobre aqueles que amamos, as mesmas palavras do Jordão: tu és amado. Não pelo preço, mas pelo valor que só o Amor sabe dar.
Fiat.









Dê seu testemunho sobre seu encontro com a Divina Vontade