Estudo 62 O Evangelho como me foi revelado – Escola da Divina Vontade

Estudo 62 O Evangelho como me foi revelado – Escola da Divina Vontade
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71. Judas Iscariotes apresentado a João e a Simão Zelote.
6 de janeiro de 1945.
71.1Vejo Jesus com Judas Iscariotes, dando uns passos, para cima e para
baixo, junto a uma das portas do recinto do Templo.
– Estás certo de que ele virá? –pergunta Judas.
– Estou certo. Ele ia partir ao amanhecer de Betânia e no Get-Sammi ia
encontrar-se com o meu primeiro discípulo…
Uma pausa, depois Jesus se detém e olha fixamente para Judas. Colocase em sua frente. Perscruta-o. Em seguida põe-lhe uma mão sobre o ombro e
lhe pergunta:
– Por que é Judas, que não me dizes o teu pensamento?
– Que pensamento? Não tenho um pensamento especial neste momento,
Mestre. Perguntas eu te faço até demais. E certamente não te podes queixar
do meu mutismo.
– Faz-me muitas perguntas e me dás muitas informações sobre a cidade e
seus habitantes. Mas não me abres a tua alma. Que importância queres que
tenham para Mim informações sobre o seu patrimônio e a estrutura desta ou
daquela família? Eu não sou um mandrião que tenha vindo aqui por
passatempo. Tu sabes porque é que Eu vim. E bem podes compreender que
me importa antes de tudo, ser o Mestre dos meus discípulos. Por isso quero
da parte deles sinceridade e confiança. 71.2Teu pai te amava, Judas?
– Sim, me amava muito. Eu era o seu orgulho. Quando eu voltava da
escola, e também mais tarde, quando eu voltava de Jerusalém para Keriot,
ele queria que eu lhe contasse tudo. Interessava-se por tudo o que eu fazia e
se eram coisas boas, se alegrava, se eram coisas menos boas, me animava.
Se — alguma vez, como sabes, todos erram — eu tinha cometido algum erro
e recebido alguma repreensão, ele me fazia ver toda a justiça da repreensão
recebida e quanto eu havia errado. Mas o fazia tão docemente… parecia um
irmão maior. E terminava sempre assim: “Isto eu te digo, porque quero que o
meu Judas seja um justo. Quero ser abençoado através do meu filho…” Meu
pai…
Jesus que ficou o tempo todo fitando atentamente o discípulo,
sinceramente emocionado com a evocação da memória de seu pai, lhe diz:
– Aí está, Judas, fica certo de tudo o que te digo. Nenhuma obra fará
mais feliz o teu pai do que a de seres meu fiel discípulo. O espírito de teu
pai exultará, lá onde está esperando a Luz — porque, se assim ele te educou,
justo deve ter sido — vendo-te meu discípulo. Mas, para o seres, deves
dizer-te a ti mesmo: “Reencontrei o meu pai que eu tinha perdido, um pai que
parecia um irmão mais velho, eu o encontrei no meu Jesus e a Ele, como ao
meu pai amado que eu ainda choro, direi tudo, para ter dele guia, bênção ou
mansa repreensão.” Queira o Eterno e tu, sobretudo tu, queiras agir de tal
modo, que Jesus só possa te dizer: “És bom, Eu te abençôo.”
– Oh! Sim Jesus, sim. Se Tu me amares muito, eu saberei tornar-me bom,
como Tu queres, e como meu pai queria. E minha mãe não terá mais aquele
espinho no coração. Ela dizia sempre: “Estás agora sem guia, meu filho, e
ainda tens tanta necessidade!” Quando ela souber que tenho a Ti!
– Eu te amarei, como nenhum outro homem poderia, Eu te amarei muito,
te amo muito. Não me decepciones.
– Não, Mestre, não. Eu era cheio de contrastes: invejas, ciúmes, manias
de querer ser o primeiro, a sensualidade, tudo se chocava em mim contra os
sentimentos bons. Queres ver? Agora há pouco, Tu me causaste uma dor. Ou
seja, Tu, não. O que a causou foi a minha natureza má… Eu pensava que era
o teu primeiro discípulo… e Tu me disseste que já tens um outro.
– Tu mesmo o viste. Não te lembras de que no Templo, pela Páscoa, Eu
estava com muitos galileus?
– Pensava que fossem amigos… Eu pensava que eu fosse o primeiro
escolhido para tal condição e por isso, o predileto.
– Não há distinções em meu coração entre os últimos e os primeiros. Se
o primeiro cometesse falta, e o último fosse um santo, aí então, aos olhos de
Deus é que se faria uma distinção. Mas Eu, Eu amarei da mesma forma, com
um amor feliz ao santo e com um amor sofredor ao pecador. 71.3Mas eis João
que chega com Simão. João, o meu primeiro. Simão, aquele do qual te falei
dois dias atrás. Simão e João, tu já os viste. Um era doente…
– Ah! O leproso! Eu me lembro. Já é o teu discípulo?
– Desde o dia seguinte.
– E comigo, por que tanta espera?
– Judas?!
– É verdade. Perdão.
João viu o Mestre e o mostra a Simão. Apressam o passo. A saudação
de João é um beijo trocado com o Mestre. Simão, ao invés, prostra-se ao pés
de Jesus e os beija, exclamando:
– Glória ao meu Salvador! Abençoa o teu servo para que as suas ações
sejam santas aos olhos de Deus, e eu lhe possa dar glória para bendizê-lo
por ter-me dado a Ti!
Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça:
– Claro que Eu te abençôo para agradecer-te por teu trabalho. Levantate, Simão. Eis, João; eis, Simão: este é o último discípulo. Ele também quer
seguir a Verdade. Por isso, é irmão de todos vós.
Saúdam-se, os dois judeus com uma indagação recíproca e João com sua
expansão.
– Estás cansado, Simão? –pergunta Jesus.
– Não, Mestre. Junto com a saúde, veio-me um vigor que eu ainda não
conhecia.
– E sei que o estás empregando bem. Tenho falado com muitos e todos
me falaram de ti como daquele que já os instruiu sobre o Messias.
Simão sorri contente:
– Ontem mesmo, à tarde, falei de Ti com uma pessoa que é um israelita
honesto. Espero que um dia o conheças. Gostaria que fosse eu quem Te
conduzisse a ele.
– Isto não é impossível.
Judas intervém:
– Mestre, Tu me prometeste ir comigo à Judéia.
– E irei. Simão continuará a instruir as pessoas sobre a minha vinda. O
tempo é breve, amigos, e o povo é numeroso. 71.4Agora Eu vou com Simão. A
tarde, vós dois ireis ao meu encontro pela estrada do Monte das Oliveiras e
distribuiremos dinheiro aos pobres. Ide.
Jesus, sozinho com Simão, lhe pergunta:
– Aquela pessoa de Betânia é um verdadeiro israelita?
– Um verdadeiro israelita. Há nele todas as idéias predominantes, mas
ele tem também uma verdadeira ânsia pelo Messias. E quando eu lhe disse:
“Ele já está entre nós”, ele respondeu imediatamente: “Feliz de mim, que
vivo nesta hora!”
– Iremos a ele um dia para levar a bênção à sua casa. Viste o novo
discípulo?
– Eu vi. É jovem e parece inteligente.
– Sim. Ele é. Tu, que és judeu, mais do que os outros será compatível de
suas idéias.
– É um desejo, ou uma ordem?
– É uma ordem serena. Tu, que sofreste, és capaz de ter mais
indulgência. A dor ensina tantas coisas!
– Se me mandas, eu serei todo indulgência para com ele.
– Sim, isto mesmo. Talvez o meu Pedro, e não só ele, fique um pouco
escandalizado, ao ver como trato e me preocupo com este discípulo. Mas um
dia eles entenderão… quanto mais alguém é mal formado, mais precisa de
cuidados. Os outros… oh! os outros vão-se formando também por si,
somente por contato. Eu não quero fazer tudo por Mim. Peço a vontade do
homem e a ajuda dos outros para formar um homem. Eu vos chamo para que
me ajudeis… e vos fico agradecido pela ajuda.
– Mestre, estás supondo que dele te venham decepções?
– Não. Mas ele é jovem e cresceu em Jerusalém…
– Oh! Perto de Ti ele se corrigirá de todos os vícios desta cidade…
Estou certo disso. Eu, já velho e tornado insensível pelo fastio da vida,
tornei-me completamente novo, desde o dia em que Te vi…
Jesus murmura:
– E assim seja.
E depois, em voz alta:
– Vem Comigo ao Templo. Vou evangelizar o povo.
E a visão termina.

72. Em direção a Belém com João, Simão Zelote e Judas Iscariotes.
7 de janeiro de 1945.
72.1Vejo Jesus que, desde o amanhecer, sempre junto à mesma porta, se
une aos discípulos Simão e Judas. Jesus já estava com João. Eu o ouço
dizer:
– Meus amigos, Eu vos peço que venhais Comigo pela Judéia. Se não
vos custar demais, especialmente para ti, Simão.
– Por que, Mestre?
– Porque é áspero o caminho pelos montes judaicos… e talvez ainda
mais áspero será para ti, o encontrar com alguns dos que te tenham feito mal.
– Quanto ao caminho, eu Te garanto uma vez mais que depois que me
curaste fiquei mais forte do que um jovem e nenhum trabalho me cansa, ainda
mais quando ele é feito por Ti; agora, melhor ainda, Contigo. Quanto ao
encontro com quem me tiver prejudicado, não existe mais aspereza de
ressentimentos e nem de sentimentos no coração de Simão, desde quando ele
se tornou teu. O ódio caiu junto com as escamas do meu mal. E não sei,
podes crê-lo, se devo dizer-te que fizeste um milagre maior ao curar-me a
carne corroída, ou a alma queimada pelo rancor. Penso que não estou errado
ao dizer que o milagre maior foi este último. É sempre menos fácil que fique
curada uma chaga do espírito… e Tu curaste a minha num instante. Isto é
milagre. Porque, num instante não fica curado, por mais que o queira com
todas as suas forças, o homem que está doente de um hábito moral, se Tu não
anulares aquele hábito com a tua vontade santificante.
– Não estás errado em teu julgamento.
72.2 – Por que não o fazes assim com todos? –pergunta Judas, um pouco
ressentido.
– Mas Ele o faz, Judas. Por que falas assim ao Mestre? Não percebes
que estás diferente, desde que te aproximaste Dele? Eu era discípulo de
João, o Batista. Mas me achei todo mudado, desde quando Ele me disse:
“Vem!”
João, que geralmente não intervém, e especialmente se tem que fazer
diante do Mestre não o faz nunca, desta vez não é capaz de ficar calado.
Doce e afetuoso, ele pousou uma mão sobre o braço de Judas, como para
acalmá-lo, e lhe fala muito preocupado e persuasivo. Depois, se dá conta de
que falou antes de Jesus, se enrubesce e diz:
– Perdão, Mestre. Falei no teu lugar… mas queria… queria que Judas
não Te desse um desgosto.
– Sim, João. Mas ele não me deu desgosto como discípulo. Quando o
for, então, se ele persistir em seu modo de pensar, me dará um desgosto. 72.3O
que me entristece é constatar quanto o homem está corrompido por Satanás,
que lhe desvia o pensamento. Todos, sabeis? Todos tendes o pensamento
perturbado por ele! Mas virá, oh! virá o dia em que tereis em vós a Força de
Deus, a Graça, tereis a Sabedoria, com o seu Espírito… Então, tereis tudo
para julgar com justiça.
– E todos nós julgaremos com justiça?
– Não, Judas.
– Mas, estás falando para nós, discípulos, ou para todos os homens?
– Falo referindo primeiro a vós, depois a todos os outros. Quando for a
hora, o Mestre elegerá seus operários e os enviará pelo mundo…
– Já não estás fazendo isso?
– Por enquanto, o que Eu quero é que digais: “O Messias já está entre
nós. Vinde a Ele.” Então, Eu vos farei capazes de pregar em meu nome, de
realizar milagres em meu nome…
– Oh! Também milagres?
– Sim, sobre os corpos e sobre as almas.
– Oh! Como seremos então admirados!
Judas fica exultante, com esta idéia.
72.4 – Não estaremos mais com o Mestre então, mas… eu terei sempre
medo de fazer aquilo que é de Deus, com capacidade de homem –diz
João, e olha para Jesus pensativamente e também um pouco triste.
– João, se o Mestre der licença, eu queria te dizer o que penso –diz
Simão.
– Dize-o ao João. Eu desejo que vos aconselheis mutuamente.
– Como é que sabes que é um conselho?
Jesus sorri e fica calado.
– Pois bem. Então eu te digo, João, que não deves, não devemos temer.
Apoiamo-nos em sua sabedoria de Mestre santo, e em sua promessa. Se Ele
diz: “Eu vos enviarei”, é sinal de que Ele sabe que pode enviar-nos, sem que
isso prejudique a Ele e a nós, ou seja, à causa de Deus, que todos nós
consideramos querida, como uma esposa recém-casada. Se Ele nos promete
que vestirá a nossa miséria intelectual e espiritual com os fulgores do poder
que o Pai lhe dá em favor de nós, devemos estar certos de que Ele o fará e
de que nós o poderemos, não por nós mesmos, mas pela sua misericórdia.
No entanto, certamente tudo isso acontecerá, se nós não formos orgulhosos,
nem colocarmos desejo humano em nosso trabalho. Eu penso que, se
corrompermos a nossa missão, que é toda espiritual, com elementos que são
terrestres, então não se cumprirá também a palavra de Cristo. Não por sua
incapacidade, mas porque nós estrangularemos essa capacidade com o laço
da soberba. 72.5Não sei se me explico bem.
– Tu te explicas muito bem. Eu é que estava errado. Mas, sabes… eu
penso que, no fundo, o fato de desejarmos ser admirados como discípulos do
Messias, e tão dele, a ponto de termos merecido fazer o que Ele faz, seja
mais um desejo de realçar a poderosa figura do Cristo, junto aos povos.
Louvor ao Mestre, que tem tais discípulos, isto é o que quero dizer –
responde-lhe Judas.
– Nem tudo está errado no que dizes. Mas… olha, Judas. Venho de uma
casta que é perseguida por… por ter compreendido mal o que é, e como
deve ser o Messias. Sim. Se nós o tivéssemos esperado, com uma justa visão
do seu ser, não teríamos caído em erros, que são blasfêmias à Verdade e
rebelião à lei de Roma; por isso, por Deus e por Roma fomos punidos. Nós
quisemos ver no Cristo um conquistador e um libertador de Israel, um novo
Macabeu
[116] , e maior do que Judas… Só isto. E, por que? Porque mais do
que dos interesses de Deus, nós temos cuidado dos nossos interesses: da
pátria e dos cidadãos. Oh! santo também é o interesse da pátria. Mas, que é
ela, diante do Céu eterno? Quanto pensei e vi: vi a verdadeira figura do
Messias… a tua, Mestre humilde e bom, a tua, Mestre e Rei do espírito, a
tua, o Cristo, Filho do Pai e que ao Pai conduzes e não aos palácios feitos de
pó, não às deidades de barro. Primeiro nas longas horas de perseguição e
depois nas de segregação quando, fugitivo, me escondia nas tocas dos
animais selvagens partilhando com eles cama e comida para escapar das
forças romanas e sobretudo da delação dos falsos amigos; ou quando,
esperando a morte, já sentia o cheiro do sepulcro na minha caverna de
leproso. Tu… oh! Como me é fácil seguir-te… Porque, perdoa a minha
ousadia que se proclama justa, porque te vejo como antes pensei que eras, eu
te reconheço, eu logo Te reconheci. Sim, não foi um conhecimento de Ti, mas
um reconhecer Alguém que minha alma já havia conhecido…
– Por isto é que te chamei… e por isto te levo Comigo, agora, nesta
minha primeira viagem pela Judéia. 72.6Quero que tu completes o
reconhecimento… e quero que também estes, que a idade torna menos
capazes de chegar à verdade, por meio de uma meditação severa, saibam
como foi que o Mestre deles chegou até esta hora… Depois entendereis. Eisnos à vista da torre de Davi. A porta Oriental fica lá perto.
– Sairemos por ela?
– Sim, Judas. Em primeiro lugar, vamos a Belém. Ao lugar onde Eu
nasci… É bom que o saibais… para dizê-lo aos outros. Isto também faz
parte do conhecimento do Messias e da Escritura. Encontrareis as profecias
escritas nas coisas, com voz não mais de profecia mas de história. Vamos
dar uma volta ao longo das casas de Herodes…
– A velha raposa malvada e luxuriosa.
– Não julgues. Deus é quem julga. Vamos por aquele caminho, por entre
estas hortaliças. Pararemos à sombra de uma árvore, perto de alguma casa
hospitaleira enquanto o sol estiver quente. Depois, prosseguiremos o nosso
caminho.
A visão termina.
[116] um novo Macabeu, isto é, um novo Judas Macabeu, o chefe dos judeus das quais gestas se fala especialmente em: 1
Macabeus 3,1-26

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