Uma pergunta inquietante ecoa no Evangelho de Lucas: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (Lc 13,23). Por trás da questão, espreita uma ansiedade humana por estatísticas que tranquilizem, uma busca por probabilidades que suavizem a exigência do caminho. A resposta de Cristo, no entanto, não se entrega a cálculos teóricos. Ele desloca radicalmente o foco do quantos para o como, do plano especulativo para o imperativo prático: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” (Lc 13,24).
A palavra grega para “esforçar-se” aqui é agōnizesthe – a mesma raiz de “agonia”. Não se trata de um convite ameno, mas de um apelo ao combate espiritual total. É um verbo que fala de luta, de empenho extremo, de um conflito do qual depende tudo. Jesus apresenta a salvação não como um direito adquirido por pertencimento, mas como uma conquista que exige uma agonia, um esforço hercúleo e consciente.
Os Dois Trabalhos: A Agonia da Salvação e a Escravidão da Iniquidade
O Mestre, em sua sabedoria, contrasta dois tipos de “trabalho”. De um lado, está o trabalho da salvação, o esforço penoso e santificador de entrar pela porta estreita. Do outro, está o trabalho da iniquidade (Lc 13,27), uma labuta igualmente extenuante, mas voltada para o nada.
Observe a vida moderna: quantas horas, quantos recursos, quanta energia são investidos em projetos efêmeros? O fanático pelo futebol ou pelo carnaval dedica noites, dinheiro e paixão a um espetáculo que, em poucas horas, se dissolve no ar. O culto ao corpo pode se tornar uma tirania de dietas, treinos e suplementos – uma escravidão voluntária para adornar, por alguns anos, um corpo destinado ao pó. A busca desenfreada por prazeres em baladas e eventos muitas vezes termina em exaustão, vazio e até degradação.
São todos trabalhos árduos. São “portas largas” que exigem sacrifício, disciplina e investimento. Mas conduzem a que? A um instante de glória fugaz, a um prazer que se esvai, a um ídolo que não responde. É a agonia do nada, o esforço titânico para construir castelos de areia à beira-mar.
A Estreiteza Libertadora: O Caminho do que é Real
Em contraste, a “porta estreita” de Deus parece austera. Exige renúncia, disciplina dos sentidos, mortificação do ego, paciência no sofrimento, fidelidade na oração e nos sacramentos. Parece restritiva. No entanto, sua aparente estreiteza é, na verdade, libertadora. Ela nos liberta da ilusão para a realidade.
A porta estreita é estreita porque só permite passar o essencial: a alma e suas virtudes. Tudo o mais – riquezas, vaidades, prazeres efêmeros, honras mundanas – fica do lado de fora, porque do lado de lá não tem valor. No Céu, ninguém pergunta seu saldo bancário, seu número de seguidores ou seu desempenho na última maratona. Essas coisas, pelas quais muitos se agonizam na Terra, são, na eternidade, “menos do que lixo”.
A verdadeira agonia cristã, portanto, é o esforço de desapegar-se agora daquilo que, inevitavelmente, teremos que deixar para trás na hora da morte. É investir no único tesouro imperecível: a caridade, a graça, a união com Deus. O sofrimento aceito com paciência, a humilhação oferecida, a oração perseverante – tudo o que aqui nos parece pesado e “estreito” –, na eternidade se revelará como “nosso maior tesouro”.
O Pai “Raiz” e a Igreja que não é Creche
Este caminho exige uma revisão da imagem de Deus. Não temos um “Deus Papai Noel” ou “Pai Nutella”, que indulgentemente aceita nossas leviandades. Temos um Pai “raiz”, como diz a homilia, que nos educa com amor firme. “O Senhor corrige a quem ele ama” (Hb 12,6). A inquietação da consciência após o pecado, o temor de Deus, não é um castigo vingativo, mas a prova do seu amor. É o chicote do Pai que impede o filho de se perder definitivamente, conduzindo-o de volta à porta estreita.
Daí decorre um alerta severo contra um “cristianismo de porta larga”. Muitas comunidades, na ânsia de agradar e atrair, transformam-se em “Disney religiosa”: ambientes agradáveis, com música envolvente, mensagens doces que massageiam o ego e uma atmosfera de clube social. É o evangelho sem cruz, sem exigência, sem conversão. “Aqui, meu querido, é palavra seca que vai entrar na tua vida”, adverte a homilia. A verdadeira Igreja não é creche para adultos mimados, mas hospital de campanha para combatentes feridos, que oferece o “café forte” da verdade para nos manter despertos na batalha.
O Compromisso Inegociável: Onde está nossa Prioridade?
A conclusão é um chamado à seriedade existencial. O cristianismo não é um hobby, uma opção cultural ou uma rede de apoio psicológico. É “vida ou morte”. Diante de nós estão duas eternidades. A pergunta decisiva não é “quantos se salvam?”, mas “onde está o meu compromisso?”.
Os cristãos de outrora, citados na reflexão, entendiam isso. Sua fé era um eixo inegociável. Viagens, férias, conveniências – tudo se organizava em torno do compromisso com Deus, da Missa, da oração. Não eram “turistas” ou “ciganos espirituais” em busca de novidades, mas alicerces.
Precisamos redescobrir essa solidez. Chega de um cristianismo feito de levezas, de emotivismos passageiros e de compromissos condicionais. A porta é estreita. O caminho é de agonia. Mas é o único caminho que conduz à Vida que verdadeiramente importa – uma Vida que começa na renúncia aos espelhos e termina na contemplação do Rostro de Deus.
O convite de Cristo soa, hoje mais do que nunca, como um alerta e uma esperança: Esforçai-vos. Agonizai. Entrai. Pois muitos, dos primeiros, serão últimos; e muitos, dos últimos, serão primeiros. A decisão, e o esforço que ela demanda, são inteiramente nossos.











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