A Herança Perdida: Do Eu Aflito ao Coração Vazio para Deus
O Evangelho nos apresenta uma cena cotidiana e, por isso, profundamente reveladora: um homem no meio da multidão interrompe o Mestre com um pedido urgente e autocentrado: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo” (Lc 12:13). Em sua superfície, é um apelo por justiça. No entanto, nas entrelinhas deste diálogo e na resposta de Jesus, desenrola-se um diagnóstico completo da inquietação humana e o antídoto para a única pobreza que realmente importa: a pobreza diante de Deus.
Este homem, não nomeado por São Lucas para que cada um de nós possa se ver em seu lugar, está mentalmente perturbado. Sua pergunta é “fora de contexto”, brotando não de um desejo de verdade, mas de uma agitação interior. Ele é a personificação da alma contraída pelo eu. O centro de seu universo é o “meu” irmão, a “minha” herança, o “comigo”. Por trás desse desejo possessivo, opera um motor mais profundo e sombrio: o medo.
O Medo que nos Contrai: A Ilusão da Posse
Não é simplesmente o medo de não ter, mas o medo primordial da precariedade, do vazio, da morte. É a crença inconsciente de que, se “eu não tenho, eu não posso sobreviver”. A pulsão do eu, autocentrada e faminta, busca desesperadamente preencher-se com algo externo – bens, reconhecimento, segurança – para esconder-se de sua própria fragilidade. Essa busca, porém, só gera mais agitação, mais nervosismo, mais ansiedade. É a alma “esparramada por mil inquietações”, como diriam os místicos, incapaz de encontrar repouso porque está dissolvida nas múltiplas coisas que deseja.
A resposta de Jesus é um choque de lucidez: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” (Lc 12:14). Com essa pergunta, Cristo desmascara a projeção equivocada. Muitas vezes, buscamos em Deus um juiz de nossas causas terrenas, um executor de nossa vontade, um aval para nossos desejos egóicos. Queremos um Deus que inflame nosso ego, que o torne mais sólido e seguro, não Aquele que nos convida a transcendê-lo. Esta visão distorcida de nós mesmos – como centros do universo a serem protegidos – produz uma visão distorcida de Deus.
A Parábola do Rico Louco: O Monólogo da Ilusão
Jesus então se volta à multidão e profere um alerta solene: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12:15). É uma verdade evidente, mas constantemente esquecida. A morte não distingue entre ricos e pobres. Tudo o que acumulamos é impermanente, sujeito ao acaso e ao tempo.
Para ilustrar essa loucura, Ele conta a parábola do homem rico cujas terras deram grande colheita. O homem, então, entra em um monólogo consigo mesmo: “Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita… Vou derrubar meus celeiros e construir maiores… Dir-me-ei: Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!” (Lc 12:17-19).
Esse solilóquio interior é o retrato da alma encerrada em sua própria bolha. É o eu conversando com o eu, planejando, acumulando, fantasiando um futuro de autossuficiência e prazer. É o mito universal de que “quando eu tiver X, então serei feliz”. O trágico é que essa bolha pode ser até “cristianizada”. Podemos preenchê-la com devoções, culpas, mandamentos e sacramentos, mas continuaremos olhando para nosso próprio reflexo espiritual, inflando um eu “santo” e “virtuoso” que, no fundo, é apenas outra forma de hipertrofia do ego, gerando tensão e agitação interior.
A Saída: Do Monólogo ao Diálogo, da Contração à Expansão
O caminho que Jesus aponta – e que São Paulo ecoa na segunda leitura (Cl 3:1-5, 9-11) – é radicalmente oposto. É a passagem do monólogo autocentrado para o diálogo com o Infinito. É a troca da contração do eu (que aspira coisas para si) pela expansão da alma em direção a Deus.
São Francisco de Sales ensina essa passagem na Introdução à Vida Devota. Em vez de olharmos obsessivamente para nossas necessidades e méritos, somos chamados a esquecê-las, a “fazer morrer em vós o que pertence à terra” (Cl 3:5). Como? Porque, no Batismo, já morremos. “Vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3:3). A vida verdadeira já não é mais a do eu antigo, agarrado às coisas. É a vida de Cristo em nós.
Aqui reside o segredo: Deus não é uma “coisa” a ser possuída. Ele é o Ser subsistente, a Totalidade indeterminada. Como ensinava São João da Cruz, “para vir a ter tudo, não queiras ter algo em nada”. A cobiça – mesmo por coisas boas – é idolatria, pois coloca um objeto finito no lugar do Infinito. Só podemos desejar a Deus verdadeiramente quando não desejamos nada além d’Ele. Quando nossa vontade se unifica e se expande unicamente em direção a Ele, encontramos n’Ele tudo. “Cristo é tudo em todos” (Cl 3:11).
Ser Rico para Deus: A Plenitude no Vazio
O Evangelho conclui com a contundente contraposição: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus” (Lc 12:21). A riqueza diante de Deus não se ajunta; ela é. É um estado de ser, não de ter. É a plenitude que nasce do vazio, da “aniquilação psicológica” do eu possessivo, para que a alma, livre e desimpedida, possa distender-se até o Infinito e ali encontrar repouso.
A vida espiritual autêntica, portanto, não é um “devocional de bolha”, uma coleção de pedidos e conquistas em nome de Jesus para inflar nosso ego. É, sim, um exercício cotidiano de esvaziamento. É trazer ao coração o vazio de tudo o que não seja Deus, para que Ele, finalmente, tenha espaço para ser tudo em nós. Como resume a mestra do desprendimento, Santa Teresa d’Ávila: “Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.”
Que o Senhor nos conceda a graça de explodir a bolha do nosso eu inquieto, de silenciar seu monólogo angustiado e, no vazio confiante que se segue, descobrir a verdadeira herança: a paz perfeita de sermos possuídos por Aquele que é a nossa única e eterna riqueza.










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