Estudo 6 – Mística Cidade de Deus – Escola da Divina Vontade


MEDITAÇÃO DO ESTUDO – OUÇA TUDO
CAPITULO 4
DISTRIBUEM-SE POR INSTANTES OS DIVINOS DECRETOS, DECLARANDO O QUE EM CADA UM DEUS
DETERMINOU A RESPEITO DE SUA COMUNICAÇÃO AD EXTRA.

Deus é comunicativo

35. Entendi que esta ordem – referida no fim do capítulo precedente devia ser distribuída pelos seguintes instantes:
Primeiro: aquele no qual Deus conheceu seus divinos atributos e perfeições, com a inefável inclinação de comunicar-se fora de si.
Por este primeiro conhecimento de ser comunicativo ad extra, viu Deus que suas infinitas perfeições possuíam
virtude e eficácia para realizar magníficas obras, e que para tão suma bondade era convenientíssimo justo e como necessário a doação de si mesmo. Procederia de acordo com sua propensão expansiva, e exercitaria sua liberalidade e misericórdia, ao distribuir com magnificência, fora de si, a plenitude dos infinitos tesouros encerrados na Divindade.
Sendo em tudo infinito, distribuir dons e graças lhe é muito mais natural que o fogo subir à sua esfera, a pedra descer ao centro e ao sol derramar sua luz. Este mar profundo de perfeições, esta abundância de tesouros, esta caudalosa infinidade de riquezas, tendem a comunicar-se por sua mesma inclinação.

Além disso, Deus sabia que abrindo aquele inesgotável manancial de riquezas, para comunicar dons e graças,
não iria diminuí-lo, mas no modo possível aumentá-lo.

Deus é feliz em se dar

36. Tudo isto viu Deus naquele instante, depois da comunicação ad intra pelas eternas processões. Vendo-o, sentiu-se como obrigado, por amor a si mesmo, a comunicar-se ad extra, conhecendo ser santo, justo, misericordioso e piedoso assim fazer.
Ninguém o poderia impedir e conforme ao nosso modo de entender, podemos imaginar que Ele não se sentia
tranqüilo nem em repouso em sua natureza, enquanto não estivesse entre as criaturas, com as quais tem suas delícias (Pr 8,13), ao fazê-las participantes de sua divindade e perfeições.

A infinita generosidade divina
37. Duas coisas neste conhecimento admiram, arrebatam, enternecem meu tíbio coração e o deixam aniquilado:
A primeira, aquela inclinação que vi em Deus e o ímpeto de sua vontade para comunicar sua divindade e os tesouros de sua glória.
A segunda, a imensidade inefável e incompreensível dos bens e dons que, compreendi, queria e reservava para
distribuir, continuando infinito como se nada tivesse dado. Conheci nesta sua inclinação e grandeza, que estava disposto para santificar, justificar e encher de dons e perfeições a todas as criaturas reunidas e cada uma em particular.
Mesmo que as gotas do mar e sua areia, as estrelas, plantas, elementos e todas as criaturas irracionais fossem dotadas de razão e capazes de receber seus dons, dispondo-se sem apresentar óbice que os impedisse, teria dado a cada uma ainda mais do que receberam todos os santos, anjos e serafins juntos. Oh! terribilidade do pecado e sua malícia, tu somente bastas para impedir a impetuosa torrente de tantos bens eternos!

A glória de Deus, razão de suas  obras – 2° instante

38. O segundo instante consistiu em conferir e decretar esta comunicação da Divindade por razões e motivos que redundassem na maior glória, exaltação e manifestação da grandeza de Sua Majestade ad extra. Esta exaltação de si mesmo, seu conhecimento, louvor e glória, foi o fim visado por Deus ao comunicar-se pela revelação, ao expandir seus atributos e ao usar de sua onipotência.

O Verbo encarnado, protótipo da natureza humana – 3° instante
39. O terceiro instante consistiu em conhecer e determinar a disposição ou modo desta comunicação, de forma que
fosse realizada a suprema finalidade de tão grandiosa obra. Foi estabelecida a ordem que deveria haver nos objetos, e os diferentes modos de lhes comunicar a divindade e seus atributos, de sorte que aquela inclinação do Senhor tivesse digna razão, objetos proporcionados, e entre eles a mais bela e admirável disposição, harmonia e subordinação.
Neste instante foi determinado, em primeiro lugar, que o Verbo divino se encarnasse fazendo-se visível. Decretou-se a perfeita compleição da humanidade santíssima de Cristo, que assim ficou criada na mente divina, como tipo dos outros homens.
Para estes, em segundo lugar, projetou a divina mente a harmonia da natureza humana, composta de corpo orgânico, e alma espiritual. Esta com capacidade para conhecer e gozar de seu Criador, com discernimento entre o bem e o mal, e com vontade livre para amar ao Senhor.

A ordem na comunicação de Deus ad extra – União hipostática
40. Entendi que a união hipostática da segunda pessoa da SantíssimaTrindade com a natureza humana, forçosamente devia ser a primeira obra e objeto do entendimento e da vontade divina ad extra. Isto por altíssimas razões que tentarei explicar o quanto puder.

Depois de haver Deus se conhecido e amado em si mesmo, a melhor ordem era conhecer e amar ao que estava mais próximo à sua divindade: a união hipostática. Outra razão é porque a divindade devia comunicar-se substancialmente ad extra, assim como havia se comunicado ad intra. Deste modo. a intenção e vontade divina começaria suas obras pelo vértice de todas elas, e prosseguiria comunicando seus atributos com perfeitíssima ordem.
O fogo da divindade operaria primeiro, e quanto possível, no que se encontrava mais imediato a Ela, como era a
união hipostática. Sua divindade seria comunicada em primeiro lugar, a quem houvesse de chegar ao mais alto e excelente grau, depois do mesmo Deus, no conhecimento, no amor, operações e glória de sua mesma deidade.
Não queria Deus, – ao nosso baixo modo de entender – correr o risco de não conseguir este fim, sendo Ele o único ser capaz de justificar tão maravilhosa obra e ter com ela adequada proporção. Se Deus queria criar muitas criaturas, também era conveniente e como necessário, criá-las com harmonia e subordinação, e que esta fosse a mais admirável e gloriosa possível.

De acordo com isto, deviam ter uma por cabeça suprema, quanto possível imediata e unida a Deus, e pela qual passassem todas as demais para chegar à divindade.

Por estas e outras razões que não posso explicar, somente o Verbo humanado pôde satisfazer à dignidade das obras de Deus. Por Ele estabeleceu-se perfeita ordem em a natureza, ordem que, sem Ele, haveria faltado.

Humanidade de Cristo – 4° instante

41. No quarto instante decretou os dons da graça que seriam dados à humanidade de Cristo Senhor nosso, unida à
divindade. Aqui abriu o Altíssimo a mão de sua liberal onipotência e atributos, para enriquecer aquela santíssima humanidade e alma de Cristo com a plenitude de dons e graças, no máximo grau possível.
Neste instante foi determinado o que depois disse David (Ps 45,5): a correnteza do rio da divindade alegra a cidade de Deus. Dirigiu o caudal de seus dons a esta humanidade do Verbo. Comunicou-lhe toda a ciência infusa e beatífica, graça e glória que sua alma santíssima podia comportar, convenientes ao ser que era juntamente Deus e homem verdadeiro. Por esta razão, seria cabeça de todas as criaturas capazes de graça e glória. De sua plenitude é que receberiam esta graça e glória, como transbordamento da sua imensa torrente.

A Mãe de Deus
42. A este mesmo instante, consequentemente, e como em segundo lugar, pertence o decreto da predestinação
da Mãe do Verbo humanado. Aqui compreendi, que esta pura criatura foi ordenada antes que houvesse decreto de criar qualquer outra coisa.
Deste modo, antes de todos, foi concebida na mente divina, na forma que convinha à dignidade, excelência e dons da humanidade de seu Filho santíssimo.
Com Ele, imediatamente encaminhou-se para Ela toda a correnteza do rio da divindade e seus atributos, quanto era capaz de o receber uma pura criatura, e do modo conveniente à dignidade de Mãe de Deus.

Sublimidade de Maria Santíssima

sublimidade  substantivo feminino
  1. 1.
    qualidade do que se aproxima do divino, do celestial.
    “a s. da música de Bach”
    2.
    qualidade do que é perfeito, excelente; grandiosidade, excelência, perfeição.
    “a s. de sua poesia”
43. Confesso que a inteligência que recebi destes altíssimos mistérios e decretos, arrebatou-me de admiração, deixando-me fora de mim. Conhecendo esta santíssima e puríssima criatura, formada e criada na mente divina, desde ab initio antes de todos os séculos, com alvoroço e júbilo de meu espírito glorifico ao Todo-poderoso, pelo admirável e misterioso decreto em criar-nos tão pura, grande, mística e divina criatura, mais para ser admirada com louvor por todas as demais, do que para ser descrita por alguma.

Nesta admiração, eu poderia dizer o mesmo que São Dionísio Areopagita (S. Dion. in epist. ad Paulum): se a fé não me ensinasse, e a inteligência do que estou contemplando não me desse a conhecer que é Deus quem a está formando em sua idéia, e que somente sua onipotência podia e pôde formar tal imagem de sua divindade – se tudo não me fosse mostrado ao mesmo tempo – poderia supor que a Virgem Mãe tinha em si divindade.

Maria ultrapassa o resto da criação

44. Oh! quantas lágrimas correm de meus olhos, e que dolorosa admiração sente minha alma, ver que este digno prodígio não é conhecido e que esta maravilha do Altíssimo não se revele a todos os mortais!
Muito se sabe, mas muito mais se ignora, porque este livro selado não foi aberto. Fico estupefata ante o conhecimento deste tabernáculo de Deus.
Reconheço que seu Autor é mais admirável em sua formação, do que no resto de tudo o que é criado e inferior a esta Senhora, ainda que a diversidade de criaturas manifesta admirável mente o poder de seu Criador.
Somente nesta Rainha de todas, encerram-se mais tesouros que em todas juntas, e a variedade e preço de suas riquezas engrandecem mais seu Autor, do que todas as criaturas reunidas.

Tudo foi criado para Cristo e Maria
45. Aqui, a nosso modo de entender, foi prometida ao Verbo, como em contrato, a santidade, perfeição e dons de
graça e glória daquela que seria sua Mãe.
Foi prevista a proteção, amparo e defesa para esta verdadeira cidade de Deus. Nela contemplou Sua Majestade as graças e merecimentos que o amor e a fidelidade desta Senhora haveria de adquirir para si e para seu povo.
Neste mesmo instante, e como em terceiro lugar, determinou Deus criar lugar onde o Verbo humanado e sua Mãe pudessem habitar e conviver. Para eles e por eles, em primeiro lugar, criou o céu e a terra com seus astros e elementos e quanto eles contêm. Secundariamente, foram destinados para os membros e vassalos dos quais
Cristo seria cabeça e rei, pois com real previdência, todo o necessário e conveniente foi de antemão disposto e preparado.

Criação dos anjos: 5o instante

46. Passo ao 5o instante, ainda que já encontrei o que procurava. Neste, foi determinada a criação da natureza angélica que, por ser mais excelente e semelhante, no ser espiritual, à divindade, foi prevista e decretada antes
dos homens. Foi também prevista a admirável disposição dos nove coros e três hierarquias.
Sendo criados, antes de tudo, para a glória de Deus, para conhecer, amar e servir sua divina grandeza, foram secundariamente ordenados para assistir, glorificar, honrar, reverenciar e servir à humanidade deificada no Verbo eterno, sua cabeça. Em seguida, fariam o mesmo por sua Mãe Santíssima, Rainha dos anjos.

A estes foi dada a incumbência de, em todos os caminhos, levarem a ambos em suas mãos (SI 90, 12).
Neste instante, mereceu-lhes Cristo Senhor nosso, com seus infinitos merecimentos atuais e previstos, toda a
graça que receberiam. Seriam vassalos desta cabeça, modelo e supremo Rei. Mesmo que o número dos anjos fosse infinito, seriam suficientíssimos os méritos de Cristo para lhes merecer a graça.

Criação do paraíso e do inferno

47. A este instante pertence a predestinação dos bons anjos e reprovação dos maus. Conheceu Deus, com sua
ciência infinita, todas as obras de uns e outros, para predestinar, com sua livre vontade e liberal misericórdia, aos que lhe haviam de obedecer e reverenciar. Pela justiça reprovava aos que se insurgiriam contra Sua Majestade, com a soberba e desobediência nascidas do desordenado amor próprio dos rebeldes.

No mesmo instante foi determinado criar: o céu empíreo, onde sua glória fosse revelada para recompensa dos bons; a terra e mais para outras criaturas; e, no centro e profundo dela, o inferno para castigo dos maus anjos.

Criação dos homens – 6o instante

48. No sexto instante foi determinado criar povo e sociedade de homens para Cristo, já antes predeterminado na
mente e vontade divina, e a cuja imagem e semelhança se decretou a formação do homem. Assim, o Verbo humanado teria irmãos semelhantes e inferiores, formando povo de sua mesma natureza e do qual seria
cabeça.
Neste instante, determinou-se a ordem da criação de todo gênero humano: tendo por origem um só homem e mulher, destes se propagariam até a Virgem e seu Filho pelo modo em que foi concebido.
Ordenou-se, pelos merecimentos de Cristo, nosso bem, a graça e dons que seriam dados aos homens, inclusive a justiça original, se nela quisessem perseverar.

Viu-se a queda de Adão e de todos nele, com exceção da Rainha, que não foi incluída neste decreto. Para seu remédio ordenou-se que fosse passível a humanidade santíssima. Foram escolhidos os predestinados, por liberal graça, e reprovados os proscritos por reta justiça.

Ordenou-se todo o necessário para a conservação da natureza, em ordem a conseguir sua redenção e predestinação.
Foi-lhe deixada a liberdade da vontade, porque isto era mais conforme à sua natureza e à eqüidade divina.
Não se lhes fez agravo, porque se pelo livre arbítrio poderiam pecar, com a graça e luz da razão poderiam não fazê-lo.
Deus a ninguém haveria de coagir, como tampouco a ninguém recusa o necessário.
Se gravou sua lei no coração humano (SI 4, 7) ninguém tem desculpa em não reconhecê-lo e amá-lo como ao sumo bem e autor de toda a criação.

Ingratidão humana
49. Na inteligência destes mistérios, eu conhecia, com grande clareza, os motivos tão justos para os mortais de louvar e adorar a grandeza do Criador e Redentor de todos, manifestando-se e enaltecendo-se nestas obras.
Por outro lado, também via quão negligentes são eles em conhecer esta obrigação, em agradecer tais benefícios, e
a queixa e indignação que o Altíssimo sente por este esquecimento. Mandou-me e exortou-me Sua Majestade a não cometer tal ingratidão, mas oferecer-lhe sacrifício de louvor para glorificá-lo em nome de todas as criaturas.

50. Oh! Altíssimo e incompreensível Senhor meu, quem tivera o amor e perfeição de todos os anjos e justos para
louvar dignamente tua grandeza!
Confesso, grande e poderoso Senhor, que esta vilíssima criatura não pôde merecer o tão inestimável benefício
de receber esta luz tão clara sobre tua Majestade altíssima. Em tua visão conheço também a minha pequenez que
antes desta ditosa hora ignorava. Não sabia o que era a virtude da humildade, que nesta ciência se aprende. Não quero dizer que agora a tenho, mas tampouco nego que conheci o caminho certo para achá-la.

Tua luz, ó Altíssimo, me iluminou e tua lâmpada me mostrou as sendas (SI 118,105) por onde vejo o que fui e o que
sou, temendo o que possa vir a ser. Esclareceste, Rei Altíssimo, meu entendimento, e inflamaste minha vontade com o nobilíssimo objeto destas potências, e me sujeitaste inteiramente a teu querer.

Assim o quero confessar a todos os mortais, para esquecê-los e ser por eles esquecida. Sou para meu amado (Ct 2,16) e, ainda que o desmereço, meu amado é para mim. Fortalece, pois, Senhor a minha fraqueza para correr após teus perfumes, e correndo te alcance (Idem 1, 3) e te alcançando não te deixe nem te perca.
51. Muito pobre e balbuciante fui nesta capítulo, que poderia encher muitos livros. Calo, porque não sei falar, sou mulher ignorante e minha intenção só era declarar como a Virgem Mãe foi ideada e prevista ante saecula na mente divina(Eclo 24, 14).

Por tudo que entendi deste mistério altíssimo recolho-me interiormente, e com admiração e silêncio louvo o autor
destas grandezas com o cântico dos bem aventurados, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor (Is 6, 3).

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