Estudo 5 – Mistica Cidade de Deus – Cap.3 – Escola da Divina Vontade


MEDITAÇÃO DO CAPÍTULO 3
CAPITULO 3

INTELIGÊNCIA QUE TIVE SOBRE A DIVINDADE E O DECRETO DE DEUS PARA CRIAR TODAS AS COISAS.
Louvor ao Altíssimo
26. Ó altíssimo Rei e sapientíssimo Senhor, quão incompreensíveis são teus juízos (Rm 11, 33) e inescrutáveis teus
caminhos! Deus invencível, que sem ter origem, hás de permanecer para sempre (Eclo 18, 1)! Quem poderá conhecer tua grandeza e contar tuas magníficas obras?

Quem te poderá argüir por que assim fizeste? (Rm 9,20) Pois tu és Altíssimo acima de todos e nossa vista não te pode alcançar, nem o nosso entendimento compreender.

Bendito sejas, magnífico Rei, porque te dignaste mostrar a esta tua escrava e vil bichinho grandes sacramentos e
altíssimos mistérios, elevando e arrebatando meu espírito onde vi o que não saberei explicar.
. Vi ao Senhor e Criador de todos, em si mesmo, antes de criar qualquer coisa;
ignoro o modo como me foi mostrado, mas não o que vi e entendi. Sabe Sua Majestade, que tudo compreende, que para falar de sua deidade, meu pensamento suspende se, minha alma perturba-se, minhas faculdades em suas operações paralisam-se. A parte superior abandona a inferior, deixa os sentidos e voa para quem ama, abandonando a quem anima. Nestes desalentos e delíquios amorosos meus olhos derramam lágrimas e minha língua emudece.
Oh! Altíssimo e incompreensível Senhor meu, sem medida e eterno, objeto infinito do meu entendimento! Como em
tua presença me sinto aniquilada, meu ser apega-se ao pó, quase não percebendo o que sou! Como esta pequenez e miséria se atreve a contemplar tua magnificência e grande majestade? Conforta, Senhor, o meu ser, fortalece a minha visão, encoraja meu temor, para que possa dizer o que vi, em obediência às tuas ordens.

O Mistério da Ssma. Trindade
27. Com o entendimento, vi ao Altíssimo como estava em si mesmo. Tive a clara inteligência e notícia verdadeira de
que é um Deus infinito em substância e atributos, eterno, suma trindade: três pessoas e um só Deus verdadeiro. Três, porque realizam as operações de se conhecer, se compreender e se amar; e só um, por conseguir o bem da unidade eterna.

É trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai não é feito, nem criado, nem gerado, nem o pode ser, ou ter origem.
Conheci que o Filho procede somente do Pai por eterna geração e são iguais em duração e eternidade, gerado pela fecundidade do entendimento do Pai. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho Nesta indivisível Trindade não há coisa que se possa dizer anterior nem posterior, maior ou menor. As três pessoas, em si, são igualmente eternas e eternamente iguais. É uma unidade de essência em trindade de pessoas, um Deus na indivisível trindade, e três pessoas na unidade de uma substância. Não se confundem as pessoas por ser um só Deus, nem se divide ou separa a substância por serem três pessoas.
Sendo distintas entre si, é a mesma a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Igual a glória, a majestade, o poder, a eternidade, a imensidade, a sabedoria, a santidade e todos os demais atributos. E, ainda que sejam três as pessoas nas quais subsistem estas infinitas perfeições, é um só Deus verdadeiro, Santo, Justo, Poderoso, Eterno e sem medida.

Operações intratrinitárias
28. Recebi também inteligência de que esta divina Trindade se conhece com uma visão simples, sem que seja necessária nova, nem distinta notícia. Sabe o Pai o mesmo que o Filho, e o Filho e o Espírito Santo o mesmo que o Pai. Amam-se entre si reciprocamente, com um mesmo amor imenso e eterno. E uma unidade de entender, amar, agir, igual e indivisível; uma simples, incorpórea indivisível natureza, um ser de Deus verdadeiro, em quem estão reunidas e concentradas todas as perfeições em supremo e infinito grau.

Perfeições divinas
29. Conheci as propriedades destas perfeições do Altíssimo: é formoso sem fealdade, grande sem medida, bom sem comparação, eterno sem tempo, forte sem fraqueza, vida sem mortalidade, verdadeiro sem falsidade; presente em todos os lugares enchendo-os sem os ocupar, estando em todas as coisas, sem extensão; não tem contradição na bondade, nem defeito na sabedoria; nela é inestimável, terrível nos conselhos, justo nos julgamentos, secretíssimo nos pensamentos; verdadeiro nas palavras, santo nas obras, rico em tesouros; a quem nem o espaço
limita, nem a estreiteza do lugar aperta; não muda a vontade, não se perturba com o triste, as coisas passadas não lhe desaparecem nem as futuras sucedem; a quem nem a origem deu princípio, nem o tempo dará fim.

Oh! eterna imensidade, que intermináveis espaços vi em ti! Que infinidade reconheço em vosso infinito ser! Não há fronteiras para a visão, ao contemplar e se ilimitado objeto. É o ser imutável, o ser acima de todo o ser, a antidade perfeitíssima, a verdade constantíssima;  o infinito, a latitude, a longitude, a altura, a profundidade, a glória c sua causa, o descanso sem fadiga, a bondade cm grau imenso. Vi tudo juntamente e não acerto explicar o que vi.

30. Vi ao Senhor como estava antes de criar qualquer coisa. Com admiração reparei onde se encontrava o Altíssimo, porque não havia céu empíreo, nem os outros inferiores, nem sol, lua, estrelas e elementos, e somente existia o Criador sem nada haver criado. Tudo estava deserto, sem o ser dos anjos, dos homens e dos animais.

Conheci – necessariamente se há de concordar que estava Deus em seu mesmo ser, e que não teve necessidade
nem precisão de tudo quanto criou. Tanto antes como depois da criação, infinito em seus atributos, sempre os possuiu e possuirá por toda a eternidade, em virtude de seu ser independente e incriado.

Nenhuma perfeição completa e simples pode faltar à sua divindade, porque somente ela é a que é, e contém em
si, por inefável e eminente modo, todas as perfeições que se encontram nas criaturas. Tudo quanto existe, encontra-se naquele ser infinito como efeitos em sua causa.

Conhecimento de uma coisa para outra, como nós procedemos, raciocinando e conhecendo primeiro uma, com um ato de entendimento, e depois outra com um outro ato.
Deus tudo conhece juntamente, de uma só vez, sem que haja em seu infinito entendimento, anterior e posterior. Nele todas as coisas estão juntas no conhecimento e ciência divina incriada, como o estão no ser de Deus, onde se encontram contidas e encerradas como em primeiro princípio.

Deus antes da Criação
32. Esta ciência que se chama de simples inteligência, por motivo do entendimento naturalmente preceder à vontade, há de se considerar em Deus, não por ordem de tempo, mas de natureza. Segundo esta ordem, supomos que exercitou primeiro o ato de entendimento e depois o da vontade, porque estamos a considerar só o ato de entender, antes do decreto de criar qualquer coisa.
Neste estado ou instante, portanto, conferiram as três pessoas divinas, com aquele ato de entender, a conveniência das obras ad extra, a saber, todas as criaturas que existiram e existirão no futuro.

Ciência de simples inteligência

31. Conheci, pois, que estando o Altíssimo em si mesmo, decretou-se entre as três divinas pessoas – a nosso modo de entender – a comunicação e dom de suas perfeições.
Deve-se advertir, para melhor me explicar, que Deus entende todas as coisas com um ato indivisível e simplicíssimo, sem sucessão de raciocínio. Não passa do co-Ciência de visão.
33. Apesar de indigna, manifestei a Sua Majestade o desejo de saber qual foi o lugar que na mente divina teve a Mãe de Deus, Rainha nossa, quando Ele determinou criar todas as coisas, segundo a ordem que estabeleceu, ou que nós podemos entender.

Como puder, explicarei o que me foi respondido, como também a ordem que entendi nesta idéias em Deus, reduzindo as a instantes. Sem isto, a nossa capacidade não se pode acomodar à notícia desta ciência divina, chamada aqui ciência de visão. A ela pertencem as idéias ou imagens das criaturas que decretou criar e
conserva ideadas em sua mente, conhecendo-as infinitamente melhor que nós ao vê-las agora.

34. Esta divina ciência é una, simpíicíssima e indivisível, mas como as coisas a que se refere são muitas, existe
entre elas ordem de sucessão; umas são anteriores, outras posteriores, umas recebem existência de outras com a conseqüente e mútua dependência entre si.

Por esta razão nos é necessário dividir a ciência de Deus, e outro tanto a vontade, em muitos atos correspondentes
a diversos instantes, segundo a ordem dos objetos. Deste modo dizemos que Deus entendeu e determinou primeiro isto e aquilo, e uma coisa por causa de outra, e que se primeiro não quisesse ou conhecesse com ciência de visão uma coisa, não quereria outra.
Com isto não se deve pensar que Deus teve muitos atos de entender e querer, mas queremos significar que as coisas estão entre si encadeadas e sucedem-se umas às outras. Imaginando-as com esta ordem objetiva, para melhor entendê-la, transpomos a mesma ordem aos atos da divina ciência e vontade.

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