ESTUDO 2 – MARIA VALTORTA – O VOTO DE JOAQUIM E ANA



VÍDEO MEDITAÇÃO

VÍDEO DO CAPÍTULO
2. Joaquim e Ana fazem um voto ao Senhor.

22 de agosto de 1944.

Vejo o interior de uma casa. Nela está sentada, junto a um tear, uma mulher de idade. Diria, ao vê-la com os cabelos antes pretos, agora grisalhos, e no rosto não enrugado mas já cheio daquela seriedade que vem com os anos, que ela possa ter entre cinqüenta e cinqüenta e cinco anos. Não mais.
Ao indicar estas idades femininas me baseio no rosto de minha mãe, cuja imagem tenho mais que nunca presente nestes dias que me lembram os seus últimos dias junto ao meu leito… Depois de amanhã fará um ano que não a vejo mais… Minha mãe tinha um rosto jovial, sob os cabelos precocemente embranquecidos. Aos cinqüenta anos eram brancos e pretos como no fim de sua vida.
Mas, exceto a maturidade do olhar, nada denunciava os seus anos. Por isso poderia errar também aodar às mulheres idosas um certo número de anos.

Esta que vejo tecer, em uma sala toda clara de luz, que penetra da porta escancarada sobre um grande pomar diria, um sitiozinho, porque se estende num sobe e desce, até uma encosta verde – é bonita em seus traços decididamente hebreus. Olhos negros e profundos que, não sei porquê, me lembram os de João Batista.

Mas este olhar sendo altivo como de uma rainha, é doce também. Como se sobre o seu coruscar semelhante ao de uma águia fosse estendido um tênue véu azul. Doce e apenas um pouco triste, como de quem pensa, e lamenta, as coisas perdidas. A tez é morena, mas não excessivamente. A boca, levemente grande, é bem desenhada, e está parada num gesto austero que porém não é duro.

O nariz é comprido e delicado, levemente inclinado para baixo. Um nariz aquilino que fica bem com aqueles olhos. É robusta, mas não gorda. Bem proporcionada e creio que alta, a julgar de como aparece sentada.

Parece-me que está tecendo uma cortina ou um tapete. As lançadeiras multicolores correm rápidas sobre a trama que é marrom escuro, e o que já está feito mostra um vago entrelaçamento de galões e rosáceas nos quais verde, amarelo, vermelho e azul profundo se cruzam e se fundem como em um mosaico. A mulher está vestida com uma roupa muito simples e escura. Um roxo-avermelhado que parece igual a alguns amores-perfeitos.

Levanta-se ao ouvir bater à porta. É alta realmente. Abre.
Uma mulher lhe pede:

– Ana, queres dar-me a tua ânfora? Eu a encherei para ti.
A mulher tem consigo um menininho travesso de cinco anos que se pendura imediatamente nos vestidos da nominada Ana, que o acaricia enquanto vai em um outro cômodo e retorna com uma bonita ânfora de cobre, que oferece à mulher dizendo:

Ana Mãe de Maria

Ana

– Tu és sempre boa, com a velha Ana. Deus te recompense por isto e pelos filhos que tens e terás, tu bem-aventurada! Ana suspira.
A mulher a olha e não sabe o que dizer por aquele suspiro; para desviar a compaixão, que se compreende existe, diz:
– Eu te deixo Alfeu, se não te aborreces, assim posso andar mais depressa e te encherei muitas moringas e jarras.
Alfeu está bem alegre de ficar, e explica-se o motivo. Tendo ido embora a mãe, Ana o pega no colo e o leva ao pomar, o levanta até uma parreira de uvas loiras como topázio e diz:
– Come, come, que são gostosas – e o beija no rostinho sujo de suco de uva, que o menino arranca avidamente do cacho. Depois ri com gosto, e parece imediatamente mais jovem por causa dos dentes bonitos que aparecem e pela alegria que lhe cobre o rosto, anulando os anos, quando o menino diz:

– E agora o que me dás? – ele a olha com dois olhos grandes arre galados de um cinzento azul escuro. Ela ri e brinca inclinando-se sobre os joelhos, dizendo:
– O que me dás se te dou… se te dou… adivinha!
O menino, batendo as mãozinhas, diz todo risonho:
– Beijos, beijos te dou, Ana bonita, Ana boa, Ana mamãe!…
Ana, ouvindo dizer: “Ana mamãe”, dá um verdadeiro grito de afeto jubiloso e se abraça contra o pequenino, dizendo:
– Oh que alegria! Querido! Querido! Querido! – A cada “querido” um beijo desce sobre a pequena face rósea. E depois vão a uma estante, e vai tirando de um prato pãezinhos de mel.
– Fiz os pãezinhos para ti, beleza da pobre Ana, para ti que me queres bem. Mas, diz-me, quanto me queres bem?
E o menino, pensando naquilo que mais o impressionou, diz:
– Tanto quanto amo o Templo do Senhor.
Ana o beija ainda sobre os olhinhos espertos, sobre a boquinha vermelha, e o menino a toca de leve como um gatinho.
A mãe vai e vem com o cântaro cheio e ri sem dizer nada. Ela os deixa ao seu entusiasmo.

Entra do pomar um homem ancião, um pouco mais baixo que Ana, com uma cabeça de cabelos espessos todos brancos. Um rosto claro, de barba aparada, com dois olhos azuis como
turquezas entre cílios de um castanho claro quase loiro. Está vestido de marrom es curo.
Ana não o vê porque virou-se de costas à porta, e ele vem atrás dela dizendo: “E a mim nada?”.
Ana vira-se e diz:
– Oh Joaquim! Terminastes o teu trabalho?
Ao mesmo tempo, o pequeno Alfeu lhe abraça os joelhos dizendo:
– A ti também, a ti também!
Quando o ancião se inclina e o beija, o menino cinge-lhe o  pescoço despenteando-lhe a barba com as mãozinhas e com beijos.
Joaquim também tem o seu presente. Tira de trás das costas a mão esquerda e lhe oferece uma maçã tão bonita que parece de cerâmica. Rindo diz ao menino, que estende as mãozinhas avidamente:

Espera que a corto em fatias para ti. Assim não podes. É maior do que tu. Com um canivete que carrega à cintura, uma faca de poda dor, a corta em fatias, parecendo dar de comer a um passarinho no ninho, tal é o cuidado com que coloca os bocados na boquinha aberta que mastiga e mastiga.

– Mas olha só que olhos, Joaquim! Não parecem dois pedacinhos do mar da Galiléia, quando o vento da noite lança um véu de nuvem no céu?
Ana fala apoiando uma mão nas costas do marido e apoiando-se também levemente a si mesma, num gesto que revela um profundo amor de esposa, um amor intacto, depois de muitos anos de casa mento.

Joaquim pai de Maria

Joaquim

Joaquim a olha com amor e concorda dizendo:
– Maravilhosos! E aqueles caracoizinhos? Não têm a cor da palha que o sol secou? Olha: entre eles há uma mistura de ouro e cobre.

– Ah! Se tivéssemos tido um menino, teria querido assim, com estes olhos e estes cabelos…
Ana está inclinada, aliás, ajoelhada e com um grande suspiro, beija os dois grandes e belos olhos cinza-azulados.
Joaquim também suspira. Mas quer consolá-la. Coloca-lhe a mão sobre seus cabelos crespos e embranquecidos e lhe diz:
– Convém ainda esperar. Deus tudo pode. Enquanto se é vivo, o milagre pode acontecer, especialmente quando se ama e se é amado.
Joaquim frisa muito as últimas palavras.
Mas Ana calada, desalentada, está com a cabeça inclinada para não mostrar duas lágrimas que descem, e que somente o pequeno Alfeu vê; admirado e angustiado por ver a sua grande amiga chorar, como faz algumas vezes, levanta a mãozinha e enxuga aquele pranto.
– Não chores Ana! Somos felizes assim mesmo. Ao menos eu sou, porque tenho a ti.
– Eu também. Mas não te dei um filho… Penso que desagradei a Senhor, já que me secou as entranhas…

– Oh minha mulher! Em que tu, santa, queres ter-lhe desagrada do? Escuta. Vamos ainda uma vez ao Templo. Por este motivo. Não só pelos Tabernáculos. Façamos uma longa oração… Talvez te aconteça como com Sara… ou com Ana de Elcana. Muito esperaram, e se acreditavam reprovadas
por serem estéreis. Ao invés disso, nos céus de Deus, amadurecia um filho santo para elas. Sorri, minha esposa. O teu pranto me dói mais do que não ter prole… Levaremos Alfeu conosco e o faremos orar, ele que é inocente… Deus ouvirá a sua e a nossa oração, nos atendendo então”.

– Sim. Façamos um voto ao Senhor. Será seu o recém-nascido. Contanto que nos conceda… Oh! Ouvi-lo chamar-me “mamãe”!”.
E Alfeu, espectador admirado e inocente:

– Eu te chamo assim!
– Sim, querida alegria… mas tu tens a tua mamãe e eu… eu não tenho nenhuma criança… A visão termina aqui.
Entendo que iniciou o ciclo do nascimento de Maria. E estou muito contente, porque o desejava muito. Penso que também o senhor * ficará contente.
Antes que eu começasse a escrever, ouvi a Mãe dizer:
– Filha, escreve então sobre mim. Todo o teu desgosto será consolado.
Enquanto dizia isto, me pousava a mão sobre a cabeça em uma suave carícia. Depois veio a visão.
Mas a princípio, ou seja, enquanto não ouvi chamar a senhora de cinqüenta anos por nome, não havia compreendido estar diante da mãe da mãe e por isto da graça do seu nascimento.

Obs: desenhos retirados do Livro de Maria Valtorta – Publicado na Croácia

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