Estudo 47 Mistica Cidade de Deus – Escola da Divina Vontade



CAPÍTULO 17
PRIMEIROS SOFRIMENTOS DA PRINCESA DO CÉU
MARIA SANTÍSSIMA NA SUA INFÂNCIA; DEUS SE LH E
OCULTA; SUAS DOCES E AMOROSAS QUEIXAS.

Razões dos sofrimentos da Menina Maria

677. O Altíssimo, que com infinita sabedoria, peso e medida dirige os
seus (Sab 11, 21), determinou exercitar a
nossa divina Princesa com algumas provações, proporcionadas à sua idade infantil, embora sempre grande na graça, a
qual por aquele meio, aumentaria com
maior glória.
Cheia de sabedoria e graça estava nossa menifia Maria. Apesar disso,
convinha tornar-se discípula da experiência, nela se adiantando e aprendendo
a ciência do sofrimento, por cujo exercício chega à última perfeição e valor. No
curto prazo de seus primeiros anos, gozara as delícias e afagos do Altíssimo,
dos santos anjos, dos pais, da mestra e
sacerdotes no templo, pois aos olhos de
todos era graciosa e amável.
Convinha começasse a ter outra
nova ciência e conhecimento do bem que
possuía. Ciência adquirida pela ausência
e privação do bem pelo novo exercício
que ocasiona às virtudes, mediante o
confronto entre o estado das consolações e carícias, com o da soledade, aridez
e tribulações.

Suspensão das visões

678. A primeira das provações
sofridas por nossa Princesa foi a interrupção das contínuas visões que o Senhor lhe
comunicava. Tanto maior era esta dor,
quanto mais desconhecida, desacostumada, e mais elevado e precioso o tesouro que
perdia de vista. Ocultaram-se também os
Santos anjos.
Com a ausência de tantos, tão
excelentes e divinos objetos, que ao mesmo tempo se esconderam de sua vista –
ainda que não se afastassem de sua companhia, nem a privasse de sua proteção –
ficou aquela alma puríssima, a seu sentir,
deserta e solitária, em a noite obscura da
ausência do Amado que a enchia de luz.

Atitude da Menina Maria

679. Este sucesso causou surpresa a nossa menina Rainha, porque ainda
que o Senhor a houvesse prevenido para
receber trabalhos, não lhe havia explicado
quais seriam. Como o cândido coração da
singelíssima pomba nada podia pensar ou
fazer, que não fosse fruto de sua incomparável humildade e amor, concentrava-se
toda nestas duas virtudes: com a humildade, atribuía à sua ingratidão, não ter
merecido a presença e posse do bem perdido; com abrasado amor, o pedia e
procurava com tais e tão amorosos afetos
e dor, que não há palavras que possam
encarecê-lo. Naquele novo estado, voltava-se para o Senhor e lhe dizia:

Ámorosas queixas de Maria a Deus

680. Altíssimo Deus e Senhor de
toda a criação, infinito em bondade e rico
em misericórdias, confesso que tão vil criatura não pôde merecer vossos favores.
Minha alma, com íntima dor, receia sua
própria ingratidão e vosso desagrado. Se
ela me eclipsou o sol que me alentava,
vivificava e iluminava, sendo eu remissa na
correspondência a tantos benefícios, conheça Eu, meu Senhor e Pastor, a culpa de
meu grosseiro descuido.
Se, como simples e i g n o
ovelha não soube ser grata e fazer o mai
agradável a vossos olhos, prostrada estou
em terra, unida ao pó, para que Vós me u
Deus (Sl 112,5,7) que habitais nas alturas
me ergais como a pobre e desamparada
Vossas mãos poderosas me plasmaram (JÓ
10,8), não podeis ignorar nosso barro (Sl
102,14), e em que vaso depositais vossos
tesouros. Minha alma desfalece (Sl 30, i\\
em sua amargura; faltando-lhe vós q U e
sois sua doce vida, ninguém pode sustentar meu delíquio. Sem vós, aonde irei? Para
onde voltarei os olhos, sem a luz que os
ilumina? Quem me consolará, se tudo é
penar? Quem me salvara da morte na ausência da vida?

Queixas aos santos anjos

681. Dirigia-se também aos santos anjos e, continuando suas amorosas
queixas, dizia-lhes: – Príncipes celestiais,
embaixadores do supremo e grande Rei das
alturas, verdadeiros amigos de minha alma,
por que também me deixastes? Por que me
privais de vossa doce visão e me negais
vossa presença?
Não me admiro, porém, senhores
meus, de vosso desagrado, se por desgraça minha, mereci cair no de vosso Criador
e meu. Luzeiros dos céus, iluminai nesta
minha ignorância meu entendimento. Se
tenho culpa, corrigi-me e alcançai-me o
perdão de meu Senhor. Nobilíssimos cortesãos da feliz Jerusalém, apiedai-vos de
minha aflição e desamparo.
Dizei-me aonde foi meu Amado
(Ct 3, 8), revelai-me onde se escondeu.
Ensinai-me onde poderei achá-lo, sem andar vagando (Idem 1, 6) e discorrendo
pelos rebanhos de todas as criaturas. Mas,
ai de Mim, tampouco vós me respondas,
apesar de serdes tão corteses, e claramente
conhecerdes os sinais de meu Esposo, que
não vos expulsa da visão de sua face e
formosura.

Queixa-se às criaturas

682. Voltava-se em seguida às
demais criaturas e, com repetidas ânsias de
amor, falava com elas, dizendo-lhes: – Sem
dúvida, também vós que vos armais contra
os ingratos (Sb 5,18), e por serdes agradecidas, deveis estar indignadas com quem
não o soube ser. Mas, se pela bondade de
meu Senhor e vosso, me tolerais entre vós,
ainda que Eu seja a mais vil, não podeis
satisfazer a meus desejos.
Muito belos e espaçosos sóis, ó
céus! Formosos e refulgentes os planetas
e todas as estrelas; grandes e indômitos os
elementos; ataviada a terra de plantas
perfumosas e ervas inumeráveis; admiráveis os peixes das águas, rápidas as vagas
do mar (Sl 92, 4), as aves velozes, os
minerais ocultos, fortes os animais e o
conjunto de tudo uma escala e doce melodia, para chegar ao conhecimento de meu
Amado.
Mas, como sois longos rodeios
para quem ama! mesmo que por todos
caminhe com presteza, por fim paro e não
encontro meu bem, pois os indícios certos
de sua beleza, dados pelas criaturas, não
sossega meu vôo, não alivia minha dor,
não diminui minha pena; pelo contrário,
cresce minha tristeza, aumenta-se o desejo, inflama-se o coração e, no amor insatisfeito, desfalece a vida terrena.
Oh! doce morte, sem minha vida!
Oh! penosa vida, sem minha alma e sem
meu Amado! Que fazer? Para onde ir? Onde
viverei e onde morrerei? Se me faltou a vida,
que força, fora dela, me sustenta? Ó vós,
todas as criaturas, que com vossa constante conservação e perfeição me dais
tantas notícias de meu Senhor, atendei e
vede se há dor semelhante à minha .

Complacência da Ssma. Trindade nos afetos da Menina Maria

683. Outras muitas razões, que
não podem caber em pensamento criado,
formava no coração e repetia com a palavra
nossa divina Senhora. Somente sua prudência e amor puderam compreender o
peso e sentimento, produzidos pela ausência de Deus, numa alma que o gozara e
conhecera como a de Sua Alteza. Os próprios anjos, com santa e amorosa emulação,
se admiravam de ver numa pura criatura,
tenra menina, tanta diversidade de prudentíssimos atos de humildade, fé, amor,
afetos e vôos do coração.
Quem poderá explicar o agrado e
complacência do Senhor, pelas aspirações
da alma de sua eleita? Cada uma feria o
coração divino, e procedia de maior graça
e amor, do que havia no coração dos
serafins. Se todos eles, na visão da Divindade, não sabiam realizar nem imitar as
ações de Maria Santíssima, nem guardar as
leis do amor com tanta perfeição quanto
Ela, apesar de ausente e escondido o Senhor, qual seria a complacência que a
beatíssima Trindade sentiria em tais afetos? Para nossa baixeza, isto consiste oculto
mistério. Não obstante, devemos reverenciá-lo com admiração e admirá-lo com
reverência.

Continuam suas amorosas queixas

684. Nossa candidíssima pomba
não encontrava onde seu coração sossegar, nem onde pousar o pé (Gn 8,9) de seus
afetos que, em contínuos vôos e gemidos,discorriam por todas as criaturas.
Dirigiase, muitas vezes ao Senhor, com lágrimas
e suspiros amorosos. Voltava a suplicar
aos anjos de sua guarda e despertava
todas as criaturas, como se fossem capazes de razão. Elevava-se àquela altíssima
habitação, com seu iluminado entendimento e ardentíssimo afeto, onde o sumo bem
costumava deixar-se encontrar e fruir, de
suas inefáveis delícias.
Agora, porém, o supremo Senhor
e amável esposo deixava-se possuir mas
não gozar, pela sua querida. Abrasava
cada vez mais aquele puríssimo coração,
aumentando seus méritos e conquistando-o de novo, por diferentes e ocultos
dons, para que mais possuído mais o amasse, e mais amado e possuído o buscasse
com novas indústrias e ânsias de inflamado amor.
B usquei-o (Ct 3,2), dizia a divina
Princesa, e não o achei. Levantarei novamente e, percorrendo as ruas e praças da
cidade de Deus, renovarei meus cuidados.
Ai de mim! Minhas mãos distilaram mirra!
(Idem 5,5) Não bastam minhas diligências,
meus atos só têm poder para mais aumentar
minha dor! Procurei aquele que meu coração ama, procurei-o e não o encontrei! (Id
6,7). Meu amado partiu. Chamei-o e não me
respondeu. Voltei os olhos para procurálo, porém os guardas e sentinelas da cidade,
e todas as criaturas, foram-me importunas
e me desgostaram com sua presença. Filhas de Jerusalém, almas santas e justas,
rogo-vos e suplico, se encontrardes meu
querido, lhe digais que desfaleço e morro
de amor.

Intensidade das provações espirituais de Maria

685. Nestas doces e amorosas
mágoas, passou nossa Rainha alguns dias,
desprendendo aquele humilde nardo (Ct
11) fragrantíssimo perfume de suavidarj ‘
a recear o desagrado do Senhor, q u e £
pousava no fundo de seu fidelíssim
coração. Para maior glória Dele °
superabundantes méritos de sua Esposa6
prolongou a divina Providência esse pr a z 0
por algum tempo, ainda que não fosse
muito longo.
Apesar disso, durante esse tempo, padeceu a divina Senhora mais
tormentos espirituais e provações do q u e
todos os santos reunidos. Chegando a
suspeitar e temer, se perdera a Deus e caíra
em sua desgraça por própria culpa, ninguém, senão Deus, pôde compreender qual
seria a dor daquele ardente coração que
tanto soube amar. Só o de Deus foi capaz
de medi-la e só o de Maria a pôde sentir
com receios e temores de tê-lo perdido.

DOUTRINA DE MINHA SENHORA E RAINHA.

A estimação do bem corresponde a dor de sua perda

686. Minha filha, todos os bens
são estimados de acordo com o apreço que
deles fazem as criaturas. Estimam-nos na
medida em que conhecem serem bens.
Como, porém, um só e único é o verdadeiro
bem, e os demais falsos e aparentes, somente este sumo bem deve ser apreciado e
conhecido. Chegarás a lhe dar estima e
amor, quando o conheceres, experimentares e o preferires acima de tudo o que é
criado.
Por este apreço e amor, mede-se a
dor de o perder. Por aqui entenderás, um
pouco, o meu sentimento, quando se me
ausentava o bem eterno, deixando-me no
temor e na dúvida de o ter perdido por
minhas culpas. Não há dúvida que, muitas
vezes, a dor destes receios e a força do
amor me teriam privado da vida, se o mesmo
Senhor não a conservasse.
A aparente e a verdadeira perda de Deus
687. Pondera agora qual deve ser
a dor de perder a Deus verdadeiramente
por pecados, se numa alma que não tem os
maus efeitos da culpa, podem causar tanta
dor, a aparente ausência do verdadeiro
bem. Esta sabedoria não penetra na mente
dos homens carnais, antes, com estultíssima cegueira, apreciam o aparente e
tingido bem, atormentando-se e desconsolando-se quando lhes falta. Do sumo e
verdadeiro bem, no entanto, não fazem
conceito nem estima alguma, porque nunca o conheceram nem experimentaram.
Esta tremenda ignorância, contraída pelo primeiro pecado, foi suprimida
pelo meu Filho Santíssimo. Mereceu para
os homens a fé e a caridade para poderem,
de certo modo, conhecer e saborear o bem
que nunca haviam experimentado. Por isto
é doloroso que se perca e despreze a caridade, e por qualquer deleite deixe-se a fé
morta, ociosa e sem proveito. Assim vivem
os filhos das trevas, como se a eternidade
não passasse de uma falsa e duvidosa
narração.

Vigiar para não perder a amizade divina

688. Teme este perigo,
nunca suficientemente ponderado. Desvela-te e vive sempre atenta e prevenida
contra os inimigos, que jamais dormem.
Medita dia e noite como trabalharás por
não perder o sumo bem que amas. Não te
convém dormir, nem cochilar entre inimigos invisíveis, e se alguma vez teu amado
se esconder, espera com paciência, procura-o com solicitude sem descansar, pois
não conheces seus ocultos juízos. Para o
tempo da ausência e tentação, conserva
preparado o azeite (Mt 25,12) da caridade
e pura intenção, pois se te vier a faltar, serás
reprovada com as virgens estultas.

 

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