Estudo 47 Evangelho como me foi revelado – Escola da Divina Vontade


49. O encontro com Pedro e André depois de um discurso na sinagoga.
João de Zebedeu, grande também na humildade.

13 de outubro de 1944.
[…].
49.1As 14:00 horas vejo isto:
Jesus vem avante por uma estradinha, uma vereda entre dois campos.
Ele está sozinho. João, prossegue em sua direção, por um outro caminho, por
entre os campos, e enfim o alcança, passando por uma abertura entre as
sebes.
João, tanto na visão de ontem, como de hoje, é simplesmente um
jovenzinho. Um rosto rosado e imberbe de quem acaba de chegar à idade
viril e, além disso, é loiro. Por isso não tem sinal nem de bigode, nem de
barba, mas apenas o rosado das faces lisas, os lábios vermelhos com a luz
risonha do seu belo sorriso e do olhar puro, não tanto pela sua cor de
turqueza escura, quanto pela limpidez da alma virgem que transparece neles.
Os cabelos loiro-castanhos, compridos e macios, ondulam, a cada passo
veloz, quase como uma corrida.
Quando está para atravessar a sebe, ele chama:
– Mestre!
Jesus se detém, e se volta com um sorriso.
– Mestre, eu queria muito te ver! Na casa onde estás, me disseram que
tinhas vindo em direção aos campos… mas não sabia onde. Temia não te
ver.
João fala levemente inclinado, em sinal de respeito. Contudo está cheio
de um afeto confiante, em sua atitude e em seu olhar, que, estando com a
cabeça ligeiramente curvada no ombro, eleva Jesus.
– Eu vi que me estavas procurando, e vim ao teu encontro.
– Tu me viste? Onde estavas, Mestre?
– Eu estava lá.
E Jesus aponta as copas de umas árvores afastadas, que, pela cor, diria
que são oliveiras:
– Eu estava lá rezando e pensando no que Eu vou dizer esta tarde na
sinagoga. Mas Eu saí de lá, logo que te vi.
– Mas, como fizeste para me ver, se eu mal posso ver aquele lugar,
escondido como está, atrás daquela curva?
– Ainda assim o estás vendo! Eu vim ao teu encontro, porque te vi. O
que o olho não pode ver, pode o amor.
– Sim, o amor pode. 49.2Então, tu me amas, Mestre?
– E tu me amas, João, filho de Zebedeu?
– Muito, Mestre. Parece-me que sempre te amei. Antes de ter-te
conhecido, antes ainda, a minha alma te procurava, e quando eu te vi, ela me
disse: “Eis Aquele que procuras.” Eu creio que te encontrei, porque a minha
alma te sentiu.
– Tu o dizes, João, e o dizes certo. Eu também vim ao teu encontro,
porque minha alma te sentiu. Por quanto tempo me amarás?
– Para sempre, Mestre. Não quero mais amar a outros, a não ser a Ti.
– Tens pai e mãe, irmãos, irmãs, tens tua vida, e, com a vida, a mulher e
o amor. Como farás para deixar tudo isso por Mim?
– Mestre… não sei… mas me parece, se não for soberba dizer isso, que
a tua predileção tomará para mim o lugar de pai, mãe, irmãos, irmãs, e
também da mulher. De tudo, sim, de tudo estarei saciado, se me amares.
– E se o meu amor te trouxer dores e perseguições?
– Não haverá de ser nada, Mestre, se Tu me amares.
– E no dia em que Eu tivesse que morrer…?
– Não. És ainda jovem, Mestre… Por que morrer?
– Porque o Messias veio para pregar a Lei em sua verdade e para
cumprir a Redenção. A Lei aborrece o mundo, que também não quer
redenção. Por isso persegue os enviados de Deus.
– Oh! Que isto não aconteça! Não digas a quem te ama, este prognóstico
de morte!… Mas, se Tu tiveres que morrer, eu Te amarei ainda. Deixa que eu
te ame.
João tem o olhar suplicante. Mais inclinado que nunca, ele vai
caminhando ao lado de Jesus, parecendo estar mendigando amor.
Jesus pára. Olha para ele, traspassa-o com o olhar de seus olhos
profundos, e depois lhe põe a mão sobre a cabeça inclinada.
– Quero que tu me ames.
– Oh! Mestre!
João está feliz. Ainda que seus olhos estejam brilhando pelas lágrimas,
ele está sorrindo; com sua boca jovem e bem desenhada, pegando a mão
divina, beija-a nas costas e a aperta junto ao coração.
49.3Depois eles retomam o caminho.
– Disseste que me estavas procurando…
– Sim. Para dizer-te que os meus amigos querem te conhecer… e
também porque… oh! porque eu sentia vontade de estar Contigo de novo!
Fazia poucas horas que eu te havia deixado… mas já não podia mais estar
sem Ti.
– Então, terás sido um bom anunciador do Verbo?
– Tiago também, Mestre, falou de Ti, de maneira… convincente.
– De maneira que até aquele que desconfiava — nem é culpado porque a
prudência era a causa de sua reserva — também se persuadiu. Vamos agora
fazê-lo ficar completamente convicto.
– Ele estava com um pouco de medo…
– Não! Medo de Mim, não! Eu vim para os bons e mais ainda para quem
está no erro. Eu quero salvar. Não condenar. Com os honestos serei todo
misericórdia.
– E com os pecadores?
– Também. Por desonestos Eu entendo aqueles que têm a desonestidade
espiritual e, hipocritamente, se fingem bons, enquanto fazem obras más.
Fazem tais coisas, de tal modo, para o seu próprio proveito e para se
aproveitarem do próximo. Com esses Eu serei severo.
– Oh! Então Simão pode estar seguro. É sincero como nenhum outro.
– Assim me agrada, e quero que sejais todos.
– Simão quer dizer-te muitas coisas.
– Eu o ouvirei, depois que tiver falado na sinagoga. Mandei avisar os
pobres e os doentes, além dos ricos e os sadios. Todos precisam da Boa
Nova.
49.4O povoado está próximo. Alguns meninos brincam na estrada e um
deles, correndo, vem chocar-se contra as pernas de Jesus e teria caído, se
Ele não o segurasse com presteza. O menino chora mesmo assim, como se se
tivesse se machucado, mas Jesus, tomando-o nos braços, diz:
– Um israelita que chora? Que deveriam fazer os milhares e milhares de
crianças, que se tornaram homens, atravessando o deserto, atrás de Moisés?
Contudo foi mais para eles do que para os outros justamente para estes é que
fez descer o maná tão doce, porque o Altíssimo ama os inocentes e provê o
necessário a estes anjinhos da terra, a estes passarinhos sem asas, como faz
com os pássaros da mata e dos telhados. Gostas de mel? Sim? Pois bem, se
fores bom, comerás de um mel mais doce do que aquele das tuas abelhas.
– Onde? Quando?
– Quando, depois de uma vida de fidelidade a Deus, fores para Ele.
– Eu sei que não irei para lá, enquanto não vier o Messias. Minha mãe
me diz que, por ora, nós de Israel somos todos como Moisés, e morremos,
vendo de longe a Terra Prometida. Ela diz que estamos ali, à espera de
podermos entrar, e que só o Messias nos fará entrar.
– Mas que pequeno israelita esperto! Pois bem, Eu te digo que, quando
morreres, entrarás logo no Paraíso, porque o Messias já terá aberto as portas
do Céu. Mas precisas ser bom.
– Mamãe! Mamãe!
O menino escorrega dos braços de Jesus e corre ao encontro de uma
jovem esposa, que regressa com uma ânfora de cobre.
– Mamãe! O novo Rabi me disse que eu irei logo para o Paraíso, quando
eu morrer, e que vou comer muito mel… mas se eu for bom. Eu vou ser bom!
– Queira Deus! Desculpa, Mestre, se ele te aborreceu. É muito levado.
– A inocência não causa aborrecimento, mulher. Deus te abençoe,
porque és uma mãe que educa os filhos no conhecimento da Lei.
A mulher fica toda vermelha, diante do elogio, e responde:
– A bênção de Deus também para Ti.
E desaparece com o seu pequeno.
49.5 – As crianças Te agradam, Mestre?
– Sim, porque são puras… sinceras… e amorosas.
– Tens sobrinhos, Mestre?
– Eu só tenho minha mãe… Mas nela está a pureza, a sinceridade, o
amor dos pequeninos mais santos, junto à sabedoria, justiça e fortaleza dos
adultos. Eu tenho tudo em minha mãe, João.
– E Tu a deixaste?
– Deus está acima até da mais santa das mães.
– Eu irei conhecê-la?
– Sim. Tu a conhecerás.
– E ela me amará?
– Sim, te amará, porque ela ama a quem ama o seu Jesus.
– Então, não tens irmãos?
– Eu tenho primos, por parte do marido de minha mãe. Mas cada homem
para mim é irmão, e Eu vim para todos. 49.6Eis-nos diante da sinagoga. Eu
entro, e tu virás a Mim depois com os teus amigos.
João sai dali, e Jesus entra em uma sala quadrada, onde há velas em um
triângulo, como de costume, e estantes com rolos de pergaminho. A multidão
já está ali, em expectativa e em oração. Também Jesus está rezando. O povo
está cochichando e comentando atrás Dele, que se curva para saudar o chefe
da sinagoga, pedindo depois que lhe dêem um rolo.
Jesus começa a leitura. Diz:
– Estas coisas o Espírito Santo me faz ler para vós. No capítulo sétimo
do livro de Jeremias se lê
[86]
: “Assim diz o Senhor dos exércitos, o Deus de
Israel: ‘Corrigi os vossos costumes e os vossos afetos e, então, habitarei
convosco neste lugar. Não vos fiqueis iludindo com as palavras vãs por vós
repetidas: aqui está o Templo do Senhor, o Templo do Senhor, o Templo do
Senhor. Porque, se melhorardes os vossos costumes e os vossos afetos, se
fizerdes justiça entre o homem e o seu próximo, se não oprimirdes o
estrangeiro, o órfão e a viúva, se não derramardes neste lugar sangue
inocente, se não fordes atrás dos estrangeiros, para a vossa desventura, então
Eu habitarei convosco neste lugar, na terra que Eu dei a vossos pais, por
séculos e séculos’.”
Ouvi, ó vós de Israel. Eis que Eu venho esclarecer-vos sobre as
palavras de luz que a vossa alma ofuscada não sabe mais ver e compreender.
Ouvi. Muito pranto desce sobre a terra do povo de Deus, e choram os velhos
que se lembram das glórias antigas, choram os adultos curvados pelo jugo,
choram os jovens, que não têm um futuro de glória. Mas a glória da terra
nada é, se comparada a uma glória, que nenhum opressor, que não seja
Mamon ou a má vontade, vos podem arrebatar.
Por que chorais? Como é que o Altíssimo, que sempre foi bom para com
o seu povo, agora virou o olhar para o outro lado, negando aos seus filhos de
verem o seu Rosto? Não será Ele mais o Deus que abriu o mar e por ele fez
passar Israel, conduzindo-o e nutrindo-o pelas areias, defendendo-o contra
os inimigos, para desviar-se do caminho do Céu, assim como Ele deu a
nuvem aos corpos, deu a Lei para as almas? Não será mais Ele o Deus que
adoçou as águas e fez cair o maná para os que estavam extenuados? Não é
Ele o Deus que vos quis estabelecer nesta terra, firmando convosco uma
aliança de Pai para filhos? Então, por que é que agora o estrangeiro vos
feriu?
Muitos de vós murmuram: “Aqui está o Templo!” Não basta termos o
Templo, indo rezar a Deus nele. O primeiro templo, está no coração de cada
homem, onde a oração santa deve ser feita. Mas, ela não pode ser santa, se
antes o coração não se emenda, como também os costumes, os afetos, as
normas de justiça para com os pobres, para com os servos, para com os
parentes, para com Deus.
Agora, olhai. Eu vejo ricos, de coração duro, que fazem ricas ofertas no
Templo, mas que não sabem dizer ao pobre: “Irmão, eis aqui um pão e um
dinheiro. Aceita-o. De coração para coração, e que a minha ajuda não te
humilhe, como também para mim não cause soberba.” Eis, Eu estou vendo
pessoas rezando, lamentando-se com Deus, porque não as ouve prontamente,
mas que depois, com um coração de pedra, respondem “Não!” ao
necessitado, que às vezes com seu sangue lhes pede: “Escutai-me.” Aí está,
Eu vejo que vós chorais, porque a vossa bolsa foi espremida pelo
dominador. Mas depois vós espremeis o sangue daquele que odiais, e ao
esvaziar um corpo do seu sangue e de sua vida, vós não tendes horror.
Ó, vós de Israel! O tempo da Redenção chegou. Mas preparai seus
caminhos em vós com a boa vontade. Sede honestos, bons, amai-vos uns aos
outros. Ricos, não desprezeis; mercadores, não defraudeis; pobres, não
invejeis. Sois todos de um sangue e de um Deus. Sois todos chamados a um
mesmo destino. Não fecheis para vós, com os vossos pecados, o Céu que o
Messias vos abrir. Tereis errado até aqui? Agora, não erreis mais. Que cesse
todo erro.
A Lei que volta aos dez mandamentos iniciais é simples, boa, fácil, mas
devem estar mergulhados na luz do amor. Vinde. Eu vos mostrarei quais são
os amores: amor, amor, amor. Amor de Deus por vós e de vós por Deus.
Amor para com o próximo. Sempre amor, porque Deus é Amor e aqueles que
sabem viver o amor são filhos do Pai. Eu estou aqui para todos e para dar a
luz de Deus a todos. Eis aqui a Palavra do Pai, que se faz alimento em vós.
Vinde, provai, mudai o sangue do espírito com este alimento. Que todo
veneno caia. Que toda concupiscência morra. Uma glória nova vos é
oferecida, aquela eterna, e a ela virão os que fizerem da Lei de Deus assunto
de um verdadeiro estudo para os seus corações. Começai pelo amor. Não
existe coisa maior. Mas, quando souberdes amar, já sabereis tudo, e Deus
vos amará, e o amor de Deus significa ajuda contra toda tentação.
A bênção de Deus esteja sobre aquele que volta para Ele um coração
cheio de boa vontade.
Jesus se cala. O povo cochicha. A reunião se dissolve depois dos hinos
cantados, muitos salmodiando-os.
49.7 Jesus sai para a pequena praça. João, Tiago, Pedro e André estão à
porta.
– A paz esteja convosco –diz Jesus, acrescentando–: O homem, para ser
justo, precisa não julgar sem antes conhecer. Mas é também honesto em
reconhecer a sua culpa. Simão, quiseste me ver? Eis-me aqui. E tu, André,
por que não vieste antes?
Os dois irmãos se olham, embaraçados. André murmura:
– Eu não ousava…
Pedro, vermelho, não diz nada. Mas, quando ouve Jesus dizer ao irmão:
“Faríeis mal em vir? Só o mal não se deve ousar fazer” ele intervém sincero:
– Fui eu. Ele queria trazer-me logo a Ti. Mas eu… disse… sim. Eu
disse: “Não creio” e não quis vir. Oh! Agora estou melhor!…
Jesus sorri. Depois diz:
– E, pela tua sinceridade, Eu te digo que te amo.
– Mas eu… eu não sou bom… não sou capaz de fazer aquilo que
disseste na sinagoga. Eu sou iracundo, e, se alguém me ofende… Eu sou
cobiçoso e gosto de ter dinheiro… No meu mercado de peixe… não é
sempre… nem sempre eu tenho ficado sem cometer alguma fraude. Sou
ignorante. Tenho pouco tempo para seguir-te, para ter a luz. Como farei? Eu
gostaria de me tornar como Tu dizes… mas…
– Não é difícil, Simão. Sabes um pouco a Escritura? Sim? Pois bem,
pensa no profeta Miquéias. Deus quer de ti aquilo que diz
[87]
Miquéias. Não
te pede que arranques o coração, nem que sacrifiques os afetos mais santos.
Por enquanto, não te pede isto. Um dia, sem que Deus te peça, darás até a ti
mesmo a Deus. Mas Ele espera que o sol e o orvalho façam de ti, que és
ainda um fio de erva, uma palmeira forte e gloriosa. Por enquanto, Ele te
pede isto: praticar a justiça, amar a misericórdia, e tomar todo o cuidado em
seguir o teu Deus. Esforça-te para fazer isso, o passado de Simão será
cancelado e tu te tornarás um homem novo, o amigo de Deus e do seu Cristo.
Não serás mais Simão. Serás Cefas. Pedra firme sobre a qual me apóio.
– Isto me agrada. Isto eu entendo. A Lei é assim… é assim… eu não sei
mais cumpri-la como fazem os rabinos!… Mas, isto que Tu dizes, sim.
Parece-me que vou conseguir. E Tu me ajudarás. Moras aqui? Eu conheço o
dono da casa.
– Eu estou aqui. Mas agora irei para Jerusalém, e depois pregarei pela
Palestina. Vim para isso. Mas virei aqui freqüentemente.
– Eu virei ouvir-te ainda. Quero ser teu discípulo. Um pouco de luz
entrará na minha cabeça.
– Sobretudo no coração, Simão. No coração. E tu, André, não dizes
nada?
– Eu ouço, Mestre.
– Meu irmão é tímido.
– Mas se tornará um leão. A noite está chegando. Deus vos abençoe e
vos dê uma boa pesca. Ide.
– Paz a Ti.
E vão embora.
49.8Mal saíram, Pedro diz:
– O que terá Ele querido dizer antes, quando falou[88]
que eu hei de
pescar com outras redes e que farei outras pescas?
– Por que não lhe perguntaste? Querias dizer tantas coisas e, afinal,
quase não falaste.
– Eu… estava com vergonha. Ele é tão diferente de todos os outros
rabinos!
– Agora vai para Jerusalém… –João diz isso com muita saudade e
desejo–. Eu queria perguntar-lhe se me deixava ir com Ele, mas… não tive
coragem…
– Vai dizer-lhe isso, rapaz –diz Pedro–. Nós o deixamos assim… sem
uma palavra de amor… Que pelo menos Ele saiba que nós o admiramos. Vai,
vai, que eu falo com teu pai.
– Posso ir, Tiago?
– Vai.
João vai e volta correndo… e jubiloso.
– Eu disse a Ele: “Queres-me Contigo em Jerusalém?” Ele me
respondeu: “Vem, amigo!” Amigo, Ele me disse! Amanhã a esta hora virei
para cá. Ah! Em Jerusalém com Ele!…
… A visão termina.
49.9Como motivo para esta visão, disse-me Jesus esta manhã (14 de
outubro):
– Quero que tu e todos observeis o comportamento de João. É um lado
seu que sempre passa desapercebido. Vós o admirais porque ele é puro,
amoroso, fiel. Mas não notais que foi grande também sua humildade. Ele,
artífice da vinda de Pedro a Mim, modestamente se cala neste particular.
O apóstolo de Pedro e, por isto, o primeiro dos meus apóstolos, foi
João. O primeiro a reconhecer-me, o primeiro a dirigir-me a palavra, o
primeiro a seguir-me, o primeiro a pregar sobre Mim. No entanto, estais
vendo o que ele diz? Diz
[89]
assim: “André, irmão de Simão Pedro, era um
dos dois, que tinham ouvido as palavras de João, e tinham seguido a Jesus. O
primeiro, com quem se encontrou foi com o seu irmão, Simão, ao qual disse:
‘Encontramos o Messias’, e o levou a Jesus.”
Justo, além de bom, ele sabe que André se angustia por ter um caráter
fechado e tímido, que gostaria de fazer muitas coisas mas não consegue, e
João quer que o reconhecimento da sua boa vontade chegue a ele, na
memória dos pósteros. João quer que André apareça como o primeiro
apóstolo de Cristo junto a Simão, perto do irmão, não obstante a sua timidez
e acanhamento lhe terem dado alguma derrota em seu apostolado.
49.10Quem, entre aqueles que fazem alguma coisa por Mim, sabem imitar
João, sem se autoproclamarem apóstolos insuperáveis, sem pensar que o seu
êxito provém de um complexo de coisas, não somente santidade, mas
também audácia humana, sorte e, ocasionalmente, encontram-se com outros
menos audazes e felizardos, embora talvez mais santos?
Quando vós vos saís bem no que fazeis de bom, não vos glorieis, como
se o mérito fosse todo vosso. Dai louvor a Deus, Senhor dos operários
apostólicos, tende os olhos limpos e o coração sincero para ver e para dar a
cada um o aplauso que lhe cabe. Olhos limpos para discernir os apóstolos
que cumprem o holocausto, e que são as primeiras e verdadeiras alavancas
no trabalho dos outros. Só Deus vê estes que, tímidos, parecem nada fazer,
mas, ao contrário, são os raptores do fogo do céu, que ataca os audazes. Um
coração sincero para saber dizer: “Eu trabalho. Mas este ama mais do que
eu, prega melhor do que eu, se imola, como eu não sei fazer, e como Jesus
disse
[90]
: ‘… dentro do próprio quarto, com a porta fechada para rezar em
segredo’. Eu, que vejo a sua humilde e santa virtude, quero torná-la
conhecida, e dizer: ‘Eu sou instrumento ativo; este é força que me põe em
movimento, porque, ligado a Deus como ele, que é para mim canal de força
celeste’.”
A bênção do Pai, que desce para recompensar o humilde, que em
silêncio se imola para dar força aos apóstolos, descerá também sobre o
apóstolo que sinceramente reconhece a sobrenatural e silenciosa ajuda que
lhe vem do humilde, e o seu mérito, que a superficialidade dos homens não
nota.
Aprendei todos.
49.11
É o meu predileto? Sim. Mas não tem também esta semelhança
Comigo? Puro, amoroso, obediente, mas também humilde. Eu me espelhava
nele, via nele as minhas virtudes. Eu o amava por isso, como um segundo Eu.
Via sobre ele o olhar do Pai que o reconhecia como um pequeno Cristo. E
minha mãe me dizia: “Nele sinto ter um segundo filho. Parece-me estar
vendo a Ti, reproduzido em um homem.”
Oh! a cheia de sabedoria como te conheceu, ó meu dileto! Os céus azuis
de vossos corações de pureza se fundiram em um único velário para me dar
proteção de amor, e tornarem-se assim um só amor, antes ainda que Eu desse
minha mãe a João, e João à minha mãe. Eles se amaram, porque se
reconheceram semelhantes: filhos e irmãos do Pai e do Filho.
[86] se lê, em: Jeremias 7,3-7.
[87] quer de ti aquilo que diz, em: Miqueias 6,8.
[88] quando falou, o que João lhe referiu em 48.6.
[89] Diz, em: João 1,40-42.
[90] disse, em: Mateus 6,6 (172.5/6).

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