Estudo 33 – Mistica Cidade de Deus – Escola da Vontade Divina


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CAPÍTULO 3

INSTRUÇÃO QUE M E DEU A RAINHA DO CÉU SOBRE OS QUATRO VOTOS DE MINHA PROFISSÃO.
Voto é compromisso

444. Minha filha e amiga, não quero negar-te o ensinamento que me pedes
com desejo de o praticar. Recebe-o, pois, com apreço e ânimo devoto e disposto
para executá-lo.
Diz o Sábio (Pr 6,1): “Filho, se prometeste por teu amigo, prendeste tua
mão a um estranho, com tua boca te ligaste, e por tuas palavras ficaste preso”. De
acordo com esta verdade, quem fez votos a Deus, cravou a mão da própria vontade,
para não ficar livre de escolher outras obras, fora daquelas às quais se obrigou. Deverá
seguir a vontade e escolha daquele a quem, por sua mesma boca, se atou, mediante as
palavras da profissão.
Antes de fazer votos, estava em sua mão escolher o caminho; havendo-se,
porém, ligado e comprometido, saiba a alma religiosa que perdeu totalmente sua
liberdade e a entregou a Deus, na pessoa de seu superior. Toda a ruína ou salvação
das almas consiste no modo de usar a liberdade. Porque o maior número delas
usa-a mal e se perde, ordenou o Altíssimo o estado permanente da vida religiosa,
mediante os votos. Usando uma vez da liberdade, com perfeita e prudente escolha,
a criatura entrega a Deus, por esse ato, o que com outros muitos perderia, caso fi-‘
casse livre e independente para querer ou não querer.

As grandes vantagens dos votos

445. Pelos votos, perde-se felizmente a liberdade para o mal, e assegura-se
para o bem, como rédea que desvia do perigo e adestra pelo caminho plano e
seguro. Liberta-se a alma da servidão de suas paixões e, adquirindo poder sobre
elas, reina como senhora em seus domínios.
Fica subordinado somente à graça e moções do Espírito Santo, que a
governará em suas operações, se ela empregar toda sua vontade em só fazer o que
prometeu a Deus. Com isto, a criatura passa da qualidade de escrava à excelente
dignidade de filha do Altíssimo, e da condição terrena à angélica. Os defeitos
corruptíveis e o castigo do pecado não a atingem em cheio.
Não é possível, na vida mortal, compreender quais e quantos bens e tesouros conquista a alma que se dispõe,
com todas as forças e afetos, a cumprir perfeitamente os votos de sua profissão.
Asseguro-te, caríssima, que as religiosas perfeitas e pontuais podem chegar, e ainda
exceder, ao mérito dos mártires.

Exortação à fidelidade

446. Tu, minha filha, conseguiste o feliz princípio de tantos bens, no dia em
que escolheste a melhor parte. Adverte, porém, muitíssimo, que te obrigaste a um
Deus eterno e poderoso, que conhece o mais íntimo do coração.
Se mentir aos homens, e faltar lhes às promessas, é coisa tão feia e
reprovável, quanto pesará ser infiel a Deus, em promessas justíssimas e santíssimas?
Sendo teu criador, conservador e benfeitor, deves-lhe gratidão; sendo pai, reverência;
sendo esposo, lealdade. Por ser amigo, merece fiel correspondência, p0 r
veríssimo, fé e esperança. Sumo e eterno bem espera amor, onipotente a obediência,
e justíssimo juiz o temor santo e humilde.
Contra estes, e outros muitos títulos, cometerás traição e aleivosia se
faltares e quebrares as promessas de tua profissão. Se a qualquer religiosa, que vive
com obrigação de trato e vida espiritual, é tão monstruoso chamar-se esposa de Cristo
e ser membro e escrava do demônio, muito mais será em ti. Havendo recebido
mais que todas, deves excedê-las no amor, trabalho e fidelidade a tão incomparáveis
benefícios e favores.

Gravidade da ofensa a Deus

447. Adverte, pois alma, quão aborrecível esta culpa te faria ao Senhor, a
mim, aos santos e aos anjos. Todos somos testemunhas do amor e fidelidade que ele
tem mostrado, como rico, amoroso e fidelíssimo esposo. Trabalha, pois, com
sumo desvelo para não o ofender, quer no muito quer no pouco. Não o obrigues a te
desamparar, deixando-te entregue às bestas das paixões e do pecado.
Não ignoras que isto seria maior infelicidade e castigo, do que se te entregasse
ao furor dos elementos ou à ira de todas as feras e animais brutos. Se ainda os
demônios sobre ti desafogassem sua raiva, e o mundo te propinasse todas as penas
e desonras que pudesse te causar; tudo fôra menor dano para ti, do que cometer
uma só culpa venial contra Deus, a quem deves servir e amar em tudo e por tudo.
Qualquer pena desta vida é menos que a culpa, porque as penas se acabarão com a
vida mortal, enquanto a culpa pode ser eterna, e com ela o será o castigo.

Fuga do pecado

448. Na vida presente, muito atemoriza e assusta os mortais qualquer
sofrimento e tribulação, porque os percebem pelos sentidos. Não os atemoriza
nem acaba a culpa porque, embaraçados com as coisas visíveis, não pensam que
a ela segue imediatamente a pena eterna do inferno. Apesar desta pena vir tão
infiltrada no pecado, o coração humano é de tal modo pesado, que se deixa embriagar
pela culpa e não adverte no castigo, por não sentir o inferno pelos
sentidos. E, podendo vê-lo e tocá-lo pela fé, deixa-a ociosa e morta como se não a
tivesse.
Óh! infeliz cegueira dos mortais! Óh! dureza e negligência que a tantas
almas, capazes de razão e de glória, mantêm enganosamente escravizados!
Não há palavras, nem razões suficientes,para encarecer este formidável e tremendo
perigo.
Minha filha, foge e afasta-te, com santo temor, deste infeliz estado. É preferível
abraçares todos os trabalhos e tormentos da vida que logo passa, a te
expores a ele, pois nada te faltará se não perderes a Deus. Grande meio para tua
segurança, será a consideração que não há culpa pequena para ti e teu estado. O
pouco hás de temer muito, porque o Altíssimo conhece que o desprezo pelas
pequenas faltas abre o coração da criatura para admitir outras maiores. Não é amor
louvável o que não poupa qualquer desgosto à pessoa que ama.

Primeiro a obrigação, depois a devoção

449. A ordem que as almas religiosas
devem guardar em seus desejos será:
em primeiro lugar, com solicitude e pontualidade, cumprir as obrigações de seus
votos e todas as virtudes que exigem.
Depois disto, em segundo lugar, vêm as obras livres, chamadas de super-rogação.
Enganadas pelo demônio, algumas almas, com indiscreto zelo da perfeição,
costumam inverter esta ordem. Faltando gravemente em coisas obrigatórias de seu
estado, querem acrescentar outras ocupações de sua escolha, ordinariamente inúteis
ou sem importância. Nascem-lhes da presunção e singularidade, com que desejam
ser vistas e distinguidas por mais zelosas e perfeitas que outras, quando estão muito
longe de começar a sê-lo.
Em ti, não quero esta falta repreensível, mas desejo que, em primeiro lugar,
cumpras com a observância de teus votos e vida comum, e depois acrescentes o que
puderes, com a divina graça e na medida de tuas forças. Com esta ordem, tudo
aformoseia a alma e a toma perfeita e agradável aos divinos olhos.

O voto de obediência

450. O voto de obediência é o mais importante da vida religiosa, porque
contém a renúncia e negação total da própria vontade. À religiosa não fica jurisdição
nem direito algum sobre si mesma, para dizer quero ou não quero, farei ou não farei.
A tudo isto renunciou pela obediência, colocando-o nas mãos do superior. Para
cumpri-la é necessário que não te consideres sábia, nem te imagines senhora de teu
gosto, querer e entender.
A obediência verdadeira gera-se na fé. Deve-se estimar, reverenciar e crer no
que o superior manda, sem pretender examinar nem compreender. De acordo com
isto, para obedecer, considera-te sem razão, sem vida nem raciocínio. Semelhante
a um corpo morto, deixa-te mover e governar, estando viva somente para executar,
com presteza, tudo o que for da vontade do superior.
Nunca discutas contigo as ordens que recebes, somente reflete como
executarás o que te é mandado. Sacrifica teu próprio querer, degola todos os teus
apetites e paixões, e depois de estares morta a teus movimentos, seja a obediência,
vida e alma de tuas obras. Na vontade de teu superior deve estar incluída a tua,
com todos teus movimentos, palavras e ações. Pede que em tudo tirem o teu ser
próprio e te dêem outro novo que em nada seja teu, mas todo da obediência, sem
contradição nem resistência alguma.

Obediência perfeita

451. O mais perfeito modo de obedecer é aquele que não desgosta o
superior com resistência e contrariedade, mas sim o compraz com pronta execução
do que manda, sem réplicas, murmurações, ou outros atos discordantes. O
superior representa a Deus, e quem obedece aos prelados obedece ao mesmo
Senhor que está neles, para os governar e iluminar no que mandam, para o bem e
salvação da alma dos súditos. O desprezo que se faz do superior atinge a Deus
(Lc 10, 16), que por eles e neles, está ordenando e manifestando sua vontade.
Deves entender que é o próprio Senhor quem lhes move a língua, ou que são a
palavra do mesmo Deus Onipotente..
Minha filha, esforça-te por ser obediente e cantarás vitórias (Pr 21, 28).
Não temas obedecer. É caminho tão seguro, que os erros dos obedientes não serão
lembrados por Deus no dia das contas.
Ainda mais: Ele lhes apagará até os outros pecados, em consideração do sacrifício da
sua obediência.
Meu Filho Santíssimo ofereceu ao eterno Pai sua preciosíssima paixão e
morte, com particular afeto pelos obedientes.
Quis que fossem mais beneficiadas no perdão, na graça e no acerto e perfeição de
tudo quanto fizessem por obediência.
Ainda agora, muitas vezes, p a r a aplacar ao Pai, representa-lhe que p e i 0 s
homens morreu obedecendo até a cruz (F| 2, 8), e com isto aplaca-se o Senhor. De
igual modo, pelo agrado que recebeu da obediência de Abraão e seu filho, obrigou se
(Gn 22, 16) não somente a impedir a morte de Isaac, que tão obediente se mostrava,
mas ainda a constituir Abraão pai da ascendência humana de seu Unigênito,
fazendo-o Patriarca cabeça e fundamento de tantas bênçãos.

O voto de pobreza

452. O voto de pobreza é generosa abstenção e desembaraço da pesada
carga das coisas temporais. É desafogo do espírito, alívio para a humana fraqueza,
nobre liberdade do coração capaz de bens eternos e espirituais. É satisfação e fartura,
que sossega o apetite sedento de tesouros terrenos; é domínio, posse e uso nobilíssimo
de todas as riquezas. Tudo isto, minha filha, e outros maiores bens estão
contidos na pobreza voluntária.
São bens desconhecidos pelos filhos do século, amadores das riquezas e
inimigos da rica e santa pobreza. Não percebem, ainda que o padeçam, quão pesado
é o gravame das riquezas. Oprime-os até o solo, e ainda até às entranhas da terra, onde
procuram o ouro e a prata com cuidados, desvelos, trabalhos e suores não de homens
de razão, mas de brutos irracionais que ignoram o que fazem e sofrem.
Se, antes de as adquirir, as riquezas são tão pesadas, quanto o serão depois
de conseguidas? Digam-no todos quantos com esta carga caíram no inferno. Digam no
os desmedidos afãs para conservá-las, e muito mais as intoleráveis leis que elas e
os ricos introduziram no mundo.

Vantagens da pobreza

453. Tudo isto afoga o espírito, tiraniza sua fraqueza e envilece a nobilíssima
capacidade que a alma possui, para os bens eternos e para o próprio Deus. Ao
contrário, é certo que a pobreza voluntária restitui à criatura seu primitivo e nobre
estado, liberta-a de baixíssima servidão e a coloca na singela liberdade em que foi
criada para senhora de todas as coisas.
Nunca é mais senhora, do que quando as despreza. Quando as distribui
ou as deixa voluntariamente, tem a maior posse e faz o mais excelente uso das riquezas.
O apetite só acalma, quando se satisfaz por não as ter. Acima de tudo, o coração
vazio toma-se disposto para acolher os tesouros da divindade, para os quais Deus
o criou com capacidade quase infinita.

As transgressões da pobreza

454. Desejo, minha filham que estudes muito esta filosofia e ciência divina.
É muito esquecida pelo mundo, e não só por ele, mas ainda por muitas almas religiosas
que a prometeram a Deus, cuja indignação é grande por esta culpa. Os
transgressores deste voto não percebem o merecido e pesado castigo que recebem.
Tendo rejeitado a pobreza voluntária, perderam o espírito de Cristo, meu
Filho Santíssimo, aquele espírito que viemos ensinar aos homens em despojamento
e pobreza. Ainda que agora não o sintam, porque o justo Juiz dissimula, e eles gozam
da abundância que desejam, na prestação de contas que os aguarda, se acharão
confusos e espantados com o rigor da divina justiça, da qual não quiseram lembrar
nem meditar.

Os bens temporais e os eternos

455. O Altíssimo criou os bens temporais para servirem de sustento à vida
dos homens, conseguido este fim, cessa a necessidade que, sendo limitada, em breve
se acaba e com pouco se satisfaz. A alma, porém, é imortal. Não é, pois, justo que o
cuidado dos homens por ela seja passageiro, enquanto fazem perpétuo o desejo e afã
de adquirir riquezas.
É suma perversidade trocar assim os fins pelos meios, em coisa tão duradoura
e importante: que o homem dê à breve e insegura existência do corpo todo o tempo,
cuidado e trabalho de suas forças e desvelos de seu entendimento; e que à pobre
alma, não queira dar mais que uma hora em muitos anos de vida, e essa, muitas vezes,
a última e a pior da vida.

Desapego material e espiritual

456. Aproveita-te, pois, minha filha caríssima, da verdadeira luz e compreensão
que, a respeito de tão perigoso erro, te deu o altíssimo. Renuncia a toda a afeição
a qualquer coisa terrena. Ainda que seja com pretexto e aparência de necessidade,
e porque teu convento é pobre, não sejas desordenadamente solícita em procurar
as coisas necessárias para o sustento da vida, Quando nisto puseres o moderado
cuidado que deves, seja de modo a não te perturbares se faltar o que desejas.
Nada desejes com apego, ainda que te pareça ser para o serviço de Deus,

Semelhança com Cristo
460. Ainda que nenhuma virtude deve faltar, àquela que se chama e faz
profissão de esposa de Cristo, a castidade é a que mais a assemelha a seu esposo. Esta
virtude a espiritualiza e afasta da corrupção terrena, elevando-a ao ser angélico e a
certa participação do mesmo Deus.
Embelece e adorna todas as demais virtudes, eleva o corpo a um estado superior,
esclarece o entendimento e conserva nas almas a sua nobreza superior a todo o
corruptível. Diz-se que as virgens acompanham o Cordeiro (Ap 14, 4), porque esta
virtude foi precioso fruto da redenção, operada por meu Filho Santíssimo na cruz,
onde tirou os pecados do mundo.

Voto de clausura

461.0 voto de clausura é o muro de proteção para a castidade e todas as
virtudes, o engaste onde se conservam e resplandecem. E privilégio do céu para
eximir as religiosas, esposas de Cristo, dos pesados e perigosos tributos pagos, pela
liberdade do mundo, ao príncipe de suas vaidades. Por este voto, as religiosas vivem
em porto seguro, enquanto outras almas naufragam e perecem, a cada passo,
na tormenta dos perigos.
Com tantas vantagens, a clausura não é estreita prisão. Oferece às religiosas
os espaçosos campos das virtudes, do conhecimento de Deus e suas infinitas
perfeições, de seus mistérios e das admiráveis obras que realizou e realiza pelos
homens. Nestes extensos campos e espaços, podem e devem espairecer e se recrear.
Só quando não o fazem, é que a maior liberdade vem a dar impressão de opressivo
cárcere.
Para ti, filha, não haja outra expansão, nem quero que te confines à pequenez
da terra, ainda que seja o mundo inteiro. Sobe às alturas do conhecimento e
do amor divino onde, sem confins e limites que te aprisionem, viva em ampla liberdade.
Dali verás quão mesquinhas, vis e desprezíveis são todas as coisas criadas,
para com elas ocupares tua alma.

Clausura dos sentidos

462. A esta inevitável clausura do corpo, acrescenta a de teus sentidos.
Armados de fortaleza, conservem eles tua pureza interior e nela o fogo do santuário
(Lv 6,12), que deves sempre alimentar e vigiar, para que não se apague. A fim de
guardar os sentidos e auferir as vantagens da clausura, nunca chegues à porta, nem à
grade ou janela, nem te lembres que elas existem no convento, se não for para cumprir
o teu ofício, ou por obediência. Nada apeteças, porque não o conseguirás, nem
trabalhes pelo que não deves apetecer. No retiro, recato e cautela estará o teu bem e
paz, o meu agrado, e merecerás o copioso fruto e recompensa do amor e graça que
desejas.

 

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