Estudo 31 – Vida Intima de Ns Jesus Cristo – Escola da Vontade Divina



SUA PESSOA SANTIFICA OS LUGARES.

Ao raiar do dia, e rendidas as devidas graças ao Pai, prosseguíamos viagem. Todos aqueles lugares, porém, onde repousava e passava a noite, ficavam santificados e consagrados por se ter ali demorado a minha pessoa. Pedi ao Pai se dignasse fazer com que aquele terreno, onde havia me demorado e entretido com Ele, produzisse frutos de santidade. Isto é, fosse habitado por pessoas que, abandonando o mundo, se retirassem à solidão para viverem uma vida inteiramente perfeita e santa, lá se tornassem perfeitos e resplandecessem neles toda virtude e santidade. Prometeu-me fazê-lo o Pai, como efetivamente em seguida o realizou. Com o correr do tempo, naquele deserto habitaram homens santos, nos quais resplandecia toda virtude e perfeição. Alegrava-me muito com isso, e rendia ao Pai afetuosíssimas graças, deixando todos esses lugares por onde eu passava, cumulados de bençãos celestes.

OS CÂNTICOS DE MARIA E DE JESUS.

Continuando assim o nosso caminho, íamos louvando o Pai e a dileta Mãe cantava hinos de louvor. Apreciava muito aquele canto suave, pois vinha de um coração inflamado de amor por mim, Algumas vezes, ao ver a querida Mãe e José muito aflitos e cansados pela longa viagem, alçava minha voz, embora fosse menino bem pequeno, e prestando louvores a meu querido Pai, fazia-os experimentar um paraíso de alegria. Isto, contudo, muito raramente. Mas, quando o fazia, a querida Mãe e José caiam em êxtase; e toda a Corte celeste dos espíritos angélicos tinha nova e incomparável alegria e ficava a ouvir-me em atitude humilde. Aprazia muito a meu Pai, que com isto muito se alegrava. Oferecia-lhe depois esses louvores, em nome de todos os meus irmãos, para suprir as omissões deles a este respeito.

PEDE ALIMENTO AO PAI.

Chegada a hora de tomar algum reconfortante para sustentar a humanidade e achando-nos de fato sem coisa alguma que pudesse nutrir, pedi ao Pai se dignasse prover-nos em tamanha necessidade; e podendo fazê-lo, não o quis antes de chegarmos à hora determinada por meu Pai. Sempre lhe pedi a Ele, como Filho obediente e em tudo submisso. Ao Pai aprouve enviar o socorro necessário, por meio dos seus anjos. Assim nos alimentamos e rendemos depois as devidas graças ao Pai. Reiterava no íntimo os atos que já assinalei a este respeito. Cada vez que tomava algum alimento para subsistência de minha humanidade, suplicava ao Pai se dignasse nutrir todos os meus irmãos com a sua infinita providência e se dignasse ainda nutrir as almas de todos com abundância da graça, as santas inspirações e a divina palavra, esposa minha, que do Pão material, pensei unir ao pão material a minha humanidade e divindade conjuntamente.  Desde então iniciei a preparação de tão grande dom a todos os meus irmãos. Eu o pedia continuamente ao meu Pai, para sua complacência e divino beneplácito. Mas disto falarei depois em seu lugar. (fala da Eucaristia).

OS ÍDOLOS DERRIBADOS

No entanto, prosseguindo assim nosso caminho, às vezes encontrávamos alguma cidade, onde eu entrava com minha Mãe e lá pedíamos esmola de porta em porta. Por muitos era a nós negada. Todavia, antes de lá ingressar, pedia ao Pai se dignasse destruir todos os ídolos daquele lugar à minha entrada. Efetivamente, atendia-me nisto meu Pai dileto; sentiam-se os espíritos infernais expulsos de seus simulacros, por minha virtude e pelo poder da divindade que em mim se encontrava, embora não lhes fosse manifesto a mistério divino. Alegrava-me muito esposa minha, quando isto acontecia, rendia afetuosas graças a meu Pai e pedia-lhe que fizesse coisa semelhante em todas as almas de meus irmãos. Ao penetrar neles a divina força, por virtude minha, fossem destruídos todos os seus afetos desordenados, abatidas e vencidas todas as paixões viciosas que, à guisa de ídolos fazem por eles adorar, ficando a razão subjugada e dominados por essas paixões viciosas. Mostrava-se nisto um pouco renitente o Pai, por causa da indignidade de meus irmãos, que não merecem descer o Espírito divino para habitar neles pela graça e o amor, por se acharem em estado culpado e serem odiosos ao Pai, e por isto incapazes da graça e favor divino. A graça divina não pode entrar em tais almas para lá permanecer, por serem inimigas de meu Pai e odiadas por Ele, devido ao pecado que ali se encontra. Como sabia de tudo isto, redobrava as instâncias e suplicava-lhe se dignasse antes preveni-las, com santas inspirações e auxílios potentes e válidas, para conhecerem o estado em que se encontravam e dar-lhes luz e virtude a fim de expulsar de si a culpa (pelo arrependimento e perdoando-se a si mesmos e ao próximo) e assim se tornarem capazes de receber as graças que eu já lhes impetrara. Diante disso inclinou-se meu Pai com toda a benignidade, pois não podia opor resistência às minhas duplicadas súplicas, em vista do imenso amor que me dedicava, e enquanto eu lhe recordava freqüentemente as promessas que me fizera, isto é, mesmo que eu pedisse tudo o que queria, tudo obteria dele. Tendo me já concedido a graça que eu lhe rogava, fez-me ver como efetivamente a exerceria para com todos e como tamanho benefício seria mal correspondido por meus irmãos. Vi então a multidão inumerável daqueles que abusariam de tantas ajudas e graças, rejeitando as inspirações divinas, não dando ouvido aos impulsos da graça que procurava habitar neles para ali permanecer e líbertá-Ias da dura escravidão de suas paixões perversas. Oh, esposa minha, quanta aflição trouxe essa dureza e resistência ao meu Coração, que ardia no desejo da glória e honra de meu Pai e da eterna salvação deles! Ofereci ao Pai as minhas aflições e supliquei-lhe, com duplicadas instâncias que não desistisse nem se retirasse, com seus divinos impulsos e auxílios poderosos. O Pai benigno, para consolar-me em tamanha aflição, prometeu-me fazê-lo. Efetivamente, fez-me ver os efeitos admiráveis que, por fim operariam em muitas almas as repetidas inspirações e potentes impulsos. Consolei-me e rendi muitas graças ao benigno e misericordiosíssimo Pai.

Agradeci-lhe e rendi muitas graças ao lhe também por parte das mesmas, porque apesar de inteiramente indigna e não merecedoras de tantas graças, se dignou concede-lhes, somente por bondade e misericórdia às minhas instâncias. Ciente de que, se a criatura recusa uma vez admitir em si as graças de seu Criador, torna-se indigna delas e incapaz de recebê-las interiormente. Instei (Insisti) com o dileto Pai não procedesse com elas conforme o direito e a razão, os quais na realidade o exigem, mas segundo a multidão de sua misericórdia. O benigno Pai aceitou esta minha nova súplica e atendeu-a com rescrito de graças querendo comprazer-me em tudo. Quando às vezes, se mostrava um pouco renitente, eu lhe dizia: ‘Pai, bem conheces que nisto não busco a minha glória, mas a tua; não a minha utilidade, mas a das criaturas que formaste a tua imagem e semelhança e chamaste e destinaste à posse de teu Reino eterno.‘ Ao ouvir isto, o Pai inclinava-se com toda benignidade e muito se comprazia. Mostrava-se benigno quando lhe falava que desejava a salvação daquelas criaturas que Ele havia criado a sua imagem e semelhança e revelava para com elas grande amor e compaixão imensa. Tendo conhecimento de que assim mais facilmente se inclinava a usar de misericórdia para com elas, frequentemente lho repetia, pelo prazer que nisto tinha, o qual, de fato, era muito grande: e assim como verificava nele um grande desejo da salvação de todos e de sua santificação, todas as súplicas e pedidos que fazia tendiam a obter a santificação e a salvação de todos, sem excetuar um só.

PROCURANDO ESMOLA

Havendo entrado, pois, em certa cidade, e obtido do Pai quanto desejava. rendia-lhe novas graças. Pedindo depois esmola de porta em porta. como já disse, sem encontrar coisa alguma. afligia-me por aquela ingratidão. Suportava-a, no entanto, de boa vontade, com perfeita resignação e tudo o que de contrário me sucedia. Suplicava ao Pai que, em virtude daquela resignação. se dignasse conceder a todos os que vão bater à porta de sua misericórdia, as graças que lhe suplicam, e dar-lhes a esmola que me negavam. pois queria em tudo e por tudo retribuir o mal com o bem, e as repulsas com favores e graças. Depois de andar muito, encontrava-se enfim alguma coisa para comer. Então rendia graças ao Pai e pedia-lhe que assim como finalmente havia encontrado o necessário para sustentar a minha humanidade, se dignasse consolar todas aquelas almas que, ao procurarem obter de sua misericórdia as graças dispensáveis. Ele as nega, ou por causa do demérito delas, ou por outros motivos seus; Ele por fim se dignasse consola-las com a concessão do que tanto lhe pediam. O Pai prometeu-me fazê-Io, como efetivamente o realiza, pois não há criatura alguma que lhe peça graça para a própria salvação sem que Ele, depois de dobradas instâncias, não lhe conceda quanto deseja. Jamais são desiludidas a oração prolongada e a prece continuada. Agradecia por isso ao Pai dileto e benigno, também por parte de todos aqueles que seriam consolados, e pedia-lhe se demonstrasse para com todos benigno e amoroso.

ALIMENTAM-SE COM ALEGRIA.

Havendo, pois, encontrado alguma coisa para comer, salmos da cidade e prosseguindo a caminhada. Pusemo-nos a tomar aquele alimento necessário ao sustento da humanidade, do qual, por estarmos muito cansados e debilitados pela longa viagem, tínhamos, tanto eu como a dileta Mãe e José, muita necessidade. Tomamos aquele alimento com grande alegria e embora fosse bastante ruim, tornou-se-nos assaz agradável e saboroso. Rogava ao Pai que por esse gosto que sentia em nutrir-me com aquela esmola recebida, se dignasse dar gosto e sabor ao alimento que meus irmãos recebiam dos outros em esmola e que, embora fosse o pior e sem sabor, que seria dado aos meus irmãos pobres um pior, o que muito me desagradava — não obstante se dignasse meu Pai fazer com que lhes parecesse muito suave e agradável, como de fato acontece. Sentem maior sabor pelo alimento ruim que recebem de esmola os meus irmãos pobres, do que aquele que experimentam os ricos, apesar que serem as  iguarias mais requintadas do mundo. Rendia por isso as devidas graças ao Pai, também por parte de todos os meus irmãos que se encontram em semelhante situação.

PASSAGEM POR BELÉM

Continuando desta maneira nossa viagem, antes de chegar a minha pátria, quis retornar a Belém, onde nascera, tendo também minha querida Mãe e José idêntico desejo. Tomando o caminho da gruta, mais difícil se tornava a viagem e maiores eram as incomodidades que pela estrada sofria. Abracei, contudo, esta nova tribulação para ter a consolação de rever aquele lugar e deter-me um pouco ali onde se operara o mistério de meu nascimento. Ofereci ao Pai esta minha nova opção pelo sofrimento e pedi-lhe que. em virtude disto, se dignasse perdoar a todos os meus irmãos a negligência e a delicadeza com as quais, para não sofrer algum incômodo, se descuidam de fazer o bem e privam-se do consolo que lhes traria tal prática, como ainda do grande mérito que adquiririam se o fizessem. Ficava satisfeito o meu Pai no referente a sua glória, mas meus irmãos eram privados do mérito e da utilidade, pois sem agir não podiam tampouco ter algum mérito. Com isto não se satisfazia o amor que eu lhes dedicava e por isso orei novamente a meu Pai se dignasse inspirar-lhes ao coração um vivo desejo de praticar o bom que podia trazer vantagem e consolo às suas almas. Fazia-o com impulsos assaz poderosos para que pudessem superar qualquer dificuldade e abater o amor próprio, que faz o possível para fugir de qualquer ocasião de sofrimento, sob pretexto de conservação da saúde, como se esta estivesse nas mãos deles e não nas de meu Pai, e alguém tivesse de perder a saúde para praticar o bem, e se o meu Pai não tomasse cuidado deles, quando, ao invés, assiste-os de modo particular. Eles não confiam em meu Pai, e não entregam todo cuidado de si mesmos a suas Mãos. O Pai prometeu-me fazê-lo. Na realidade verifiquei a este respeito, como em tudo o mais, sua altíssima providência e como condescende com tanta benignidade a tudo o que dele reclamei. Vi como muitos se prevaleceriam das graças e santas inspirações e que a força dos divinos impulsos os levaria a superar o amor próprio. Este fato muito me alegrava, tanto pela contentamento e a glória de meu Pai, como também pela vantagem e consolo deles. Vi muitos que seriam superados pelo amor próprio e que neles não produziriam efeitos as inspirações e impulsos divinos. Senti grande pesar por verificar serem tão pouco estimadas as graças de meu Pai e pela privação do mérito que eles teriam podido adquirir. Tornava a orar ao dileto Pai que não desistisse das graças costumeiras para com eles. De fato, contemplava como meu Pai jamais cessaria de inspirar a seus corações tudo o que lhe pedia. Ficava, esposa minha, muito admirado e simultaneamente contuso ao ver a grande paciência de meu amoroso Pai: teria querido ser todo Inteiro língua para louvá-lo e bendizê-lo e inteiramente coração para amá-lo. Queria ter em mãos a vontade de todos os meus irmãos, para oferecê-la unida à santíssima vontade e modelada segundo a mesma. Ao ver que não podia tê-la e que meus irmãos queriam seguir as suas vontades próprias contra toda razão, afligia-me; sentia dor no Coração ao ver tão pouco estimadas pelas criaturas a bondade, a paciência e a longanimidade de meu amoroso Pai. Chorava copiosamente a tal vista, e era imensa a minha dor. Oferecia a dor e as lágrimas ao dileto Pai suplicava-lhe que com estas se dignasse satisfazer a sua justiça. e bondoso Pai amorosamente as recebia e dizia-me com grande amor: ‘Filho por mim infinitamente amado, fico plenamente satisfeito com tudo o  que me ofereces e nisto tenho minha complacência.¨  Agradecia muito a meu Pai e oferecia-me todo a Ele, suplicando que retirasse de mim as satisfações requeridas por sua divina justiça pelas faltas de todos meu irmãos: como sabia que elas lhe causavam muito desgosto, procurava eu satisfazer por elas, fazendo todas aquelas coisas que eram de seu gosto e satisfação a fim de que, com isto, ficasse meu Pai aplacado e usasse para com meus irmãos daquela misericórdia que por eles mesmos não mereciam.

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