Estudo 29 Mística Cidade de Deus – Escola da Vontade Divina



CAPÍTULO 24
AS SANTAS OCUPAÇÕES E EXERCÍCIOS DA RAINHA DO CÉU DURANTE O PRIMEIRO ANO E MEIO DE SUA INFÂNCIA.

O silêncio de Maria foi voluntário

378. O inevitável silêncio dos primeiros anos das outras crianças, sua
ignorância e incapacidade de saber e poder falar, em nossa Menina rainha foi
heróica virtude. As palavras são geração do entendimento e manifestação do raciocínio, faculdades que Sua Alteza
possuía em grau perfeitíssimo desde sua conceição. Se não falou logo ao nascer,
não foi por não poder, mas sim por não querer.
Ainda que às demais crianças faltam as forças naturais para abrir a
boca, mover a tenra língua e pronunciar palavras, em Maria não houve essa falha. Em a natureza era mais robusta, e
dispondo de poder sobre todas as coisas, suas potências ter-lhe-iam obedecido, se Ela assim ordenasse.
O não falar foi nela grande virtude e perfeição para ocultar sua ciência e graça,
e evitar a admiração que produziria uma recém-nascida falando. Se fora
admiração falar quem naturalmente está impedido de o fazer, parece que é mais
admirável calar, durante ano e meio, quem teria podido falar desde o nascer.

Amor e reverência filial de Maria

379. Foi disposição do Altíssimo que nossa menina e Senhora guardasse
este silêncio durante o tempo em que, naturalmente, as outras crianças não podem falar.
Somente com seus santos anjos da guarda se dispensou desta lei, ou
quando a sós orava vocalmente ao Senhor. Para falar com Deus, autor daquele
privilégio, e com os anjos seus companheiros, quando com Ela tratavam
corporalmente, não havia a mesma razão de calar, como na presença dos homens.
Convinha que orasse com a boca, pois não tendo impedimento para isso, não
era razão que aquele órgão ficasse inativo por tanto tempo.
Apesar disto, sua mãe Sant’Ana nunca a ouviu, nem soube que era capaz
de falar naquela idade. Assim, melhor se entende como foi virtude seu silêncio
durante aquele primeiro ano e meio de sua infância.
Por este tempo, quando à sua Mãe pareceu oportuno, soltou as mãos
e os braços da Menina Maria. Ela logo tomou as de seus pais e as beijou com
grande submissão e humildade reverenciai, observando sempre este
costume enquanto eles viveram. Com algumas demonstrações acenava para que
a abençoassem, falando-lhes ao coração melhor do que com a boca. Tanta era a
reverência que lhes votava que jamais faltou em obedecer-lhes; tampouco lhes
deu trabalho ou desgosto, porque conhecia seus pensamentos e antecipava-se em satisfazer-lhes as vontades.

Vida mística da Menina Maria

380. Em todas as suas ações e movimentos era dirigida pelo Espírito Santo, e sempre fazia o que era perfeitíssimo.
Não obstante, longe de estar satisfeita com este ardentíssimo amor, nasciam-lhe
contínuos e fervorosos desejos para alcançar melhores carismas (ICor 31).
Eram-lhe muito freqüentes as revelações divinas e visões intelectuais, e quando Deus lhe suspendia um modo de
visões ou intelecções, gozava de outras Da clara visão da Divindade – como a que
descrevi acima, quando ao nascer foi levada ao céu pelos anjos – ficaram-lhe as
espécies de quanto conheceu. Desde que saiu daquela adega do vinho (Ct 2, 4)
ordenada em caridade, ficou tão ferido seu coração que, ocupando-se nesta contemplação ficava toda abrasada. Sendo-lhe o
corpo frágil e tenro e o amor forte como a morte (Ct 8, 6), chegava a sofrer extrema
dor de amor, da qual morreria se o Altíssimo não lhe fortalecesse e conservasse
miraculosamente a parte inferior e a vida natural.
Muitas vezes, porém, permitia o Senhor que aquele virginal e débil
corpinho, desfalecesse pela força do amor, e os santos anjos a sustentavam e
confortavam, cumprindo-se o que é dito da Esposa: confortai-me com flores,
fortalecei-me com frutos porque desfaleço de amor (Ct 2,5). Este sublime gênero
de martírio foi milhares de vezes sofrido por esta Senhora, com o que ultrapassou
a todos os mártires no merecimento e ainda na dor.

A dor do amor a Deus

381. A dor do amor é tão doce e apetecível que, quanto maior é sua
causa, tanto mais a deseja quem a padece; procura quem lhe fale do amado e
pretende curar a ferida reabrindo-a. Este suavíssimo artifício entretém a alma, entre uma penosa vida e uma doce morte.
Isto sucedia à Menina Maria quando falava de seu amado com os
anjos. Interrogava-os Ela muitas vezes, dizendo: – Ministros do meu Senhor e
mensageiros seus, formosíssimas obras de suas mãos, centelhas daquele divino fogo do amor de Deus que abrasa
meu coração, já que gozais de sua beleza sem véu, dai-me notícias do meu amado; quais são os
dotes de meu querido? Avisai-me se, por acaso o tenho desgostado, perguntai-
|he o que deseja e quer de Mim, e não tardeis em aliviar minha pena que desfaleço de amor.

Perfeições divinas

382. Respondiam-lhe os espíritos celestiais: – Esposa do Altíssimo, vosso
amado e único, aquele que existe por si mesmo sem de ninguém necessitar, quando dele todos precisam. Infinito em
perfeições, imenso na grandeza, ilimitado no poder, sem medida na sabedoria, sem
comparação na bondade, aquele que sem princípio o deu a tudo quanto é criado;
tudo governa sem fadiga, tudo conserva sem de nada ter necessidade; veste de
beleza toda a criação e sua formosura incompreensível tornará bem-aventurados
aqueles que chegarem a vê-lo face a face.
Infinitas são, Senhora, as perfeições de vosso Esposo, excedem a nosso entendimento e seus altos juízos são impenetráveis
às criaturas.

Comunicações com Deus

383. Nestes e noutros colóquios que nossa insuficiente capacidade não pode compreender, decorria a infância
de Maria Santíssima em companhia dos anjos e do Altíssimo no qual vivia transformada. Sendo inevitável que crescesse
no fervor e ânsias de ver o sumo Bem que amava acima de todo o pensamento,
muitas vezes por vontade do Senhor e Por mãos dos anjos, era levada corporalmente ao céu empíreo, onde gozava da
presença da Divindade.
Algumas vezes a via claramente, outras, somente por espécies infusas, mas
altíssimas e claríssimas neste gênero de visão. Conhecia clara e intuitivamente também os anjos, seus graus, ordens,
hierarquias e outros grandes mistérios.
Como este favor era muito freqüente, pela sua renovação e atos que exercitava, veio
a adquirir tão intenso e vigoroso hábito de amor, que mais parecia divina que humana
criatura. Nenhuma outra poderia ser capaz deste benefício e outros que o acompanhavam; nem a natureza mortal da mesma
Rainha os poderia receber sem morrer, se por milagre não fosse sustentada.

Humildade da Menina Maria

384. Quando era necessário, naquela idade infantil, receber algum
obséquio e benefício de seus santos pais ou de qualquer outra criatura, sempre o
aceitava com interior humildade e gratidão, pedindo ao Senhor recompensar
aquele bem que lhe faziam por amor dele.
Possuindo tão alto grau de santidade, estando repleta da divina luz do
Senhor e seus mistérios, julgava-se a menor de todas as criaturas e comparando-se com elas, punha-se na própria
estima, em último lugar. Até do alimento para a vida natural se reputava indigna,
quem era a Rainha e Senhora de toda a criação.

DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU.

Quem muito recebe muito deve

385. Minha filha, quem mais recebe deve considerar-se mais pobre,
porque maior é sua dívida. Se todos devem humilhar-se porque por si mesmo
nada são, nada podem e nada possuem, por esta mesma razão há de se apegar
mais à terra aquele que, sendo pó, foi exaltado pela mão poderosa do Altíssimo.
Continuando por si e em si a não ser nem valer nada, encontra-se mais endividado e comprometido pelo que
pessoalmente não pode pagar. Conheça a criatura o que é por si mesma. Ninguém
poderá dizer: eu me criei, eu me sustento, eu posso prolongar minha vida e deter a
morte. Todo ser e sua conservação depende da mão do Senhor. Humilhe-se em
sua presença a criatura, e tu, caríssima, não esqueças este ensinamento.

Valor do silêncio e mal da loquacidade

386. Quero também que aprecies, como grande tesouro, a virtude, do
silêncio que eu comecei a guardar desde meu nascimento. Conhecendo, na luz que
recebi da poderosa mão do Senhor, todas as virtudes, afeiçoei-me muito a esta
do silêncio, propondo-me tê-la, por companheira e amiga durante a vida inteira.
Assim, a guardei com inviolável recato, ainda que teria podido falar desde que
nasci no mundo. O falar sem medida e peso é uma faca de dois gumes que fere
ao que fala e ao que ouve, e em ambos se ofende ou destrói a caridade e as
demais virtudes. Disto se deduz quanto ofende a Deus o vício da língua imprudente e solta. Com justiça, afasta seu
espírito e desvia sua face da loquacidade, murmúrios e conversações onde,
falando-se muito, não se podem evitar graves pecados (Pr 10, 19). Somente
com Deus e seus santos se pode falar com segurança, e ainda isso há de ser
com peso e discrição. Com as criaturas, porém, é muito difícil conservar o meio
termo da perfeição, sem passar do justo e necessário, ao ilícito e supérfluo.

O silêncio evita pecados

387. O remédio que te preservará deste perigo é ficar sempre mais
próxima do extremo contrário, excedendo-te em caiar. A prudente moderação
para falar só o necessário, acha-se mais perto do laconismo do que da verbosidade. Adverte que, sem deixar a Deus,
saindo de teu recolhimento interior, não podes ir atrás de arbitrárias conversações humanas. O que, sem grosseria, não
farias com outra criatura, não deves fazer com o Senhor teu e de todos. Afasta os
ouvidos das inúteis fabulações que te podem obrigar a falar o que não deves,
pois não é justo falares mais do que te ordena o Senhor. Ouve a santa lei que
liberalmente gravou em teu coração, escuta a voz de teu pastor, responde a Ele
só. Quero deixar-te avisada que, se quiseres ser minha discípula e companheira,
deves te distinguir por extremo nesta virtude do silêncio. Cala muito e grava
este ensinamento em teu coração agora.
Afeiçoa-te sempre mais a esta virtude, pois antes quero ver em ti este desejo,
para depois te ensinar como deves falar.
Não obstante, não te proíbo de falares quando deves admoestar e consolar tuas
filhas e súditas.

O silêncio cria a atmosfera de oração

388. Fala também com os que te podem dar notícias de teu amado, e te
despertam e inflamam em seu amor. Nestas palestras adquirirás o desejado e
proveitoso silêncio para tua alma. Delas nascer-te-á o desgosto e fastio das conversações humanas,
e somente apreciará falar do bem eterno que desejas.
A força do amor, que transformará teu ser no amado, enfraquecerá o ímpeto de tuas
paixões. Chegarás então a sentir um pouco daquele doce martírio que eu sofria
quando me queixava do corpo e da mortal vida; pois me pareciam duras prisões que
me impediam de voar, embora não me impedissem de amar. Oh! minha filha,
esquece todo o terrestre no segredo de teu silêncio. Segue-me com todo o esforço e fervor para chegares ao estado que
teu Esposo te convida, e possas ouvir aquela consolação que entretinha a minha amorosa dor: – Minha pomba, abre
teu coração e aceita, minha querida, esta doce pena, pois meu coração está ferido
pela tua afeição. Isto dizia-me o Senhor, e tu também ouviste o mesmo repetidas
vezes, porque Deus não deixa de falar ao solitário e silencioso.

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