Estudo 28 Mística Cidade de Deus – Escola da Vontade Divina



CAPÍTULO 23
INSÍGNIAS QUE OS SANTOS ANJOS DA GUARDA DE MARIA SANTÍSSIMA TRAZIAM QUANDO LHE
APARECIAM; SUAS PERFEIÇÕES.

Os mil anjos custódios de Maria

Já fica dito  que o número destes anjos era mil, enquanto para as
demais pessoas é apenas um. Devemos ainda entender que, pela dignidade de
Maria Santíssima, seus mil anjos a guardavam e assistiam, com maior vigilância
do que qualquer anjo custódio guarda a alma que lhe foi confiada.
Fora destes mil que formavam sua guarda ordinária e mais contínua, serviam na
em diversas outras ocasiões outros muitos, especialmente depois que concebeu
em seu seio o Verbo divino humanado.

Disse também acima que a escolha destes mil anjos foi feita por Deus no
princípio, por ocasião da criação deles, após a justificação dos bons e a queda dos
maus. Sendo ainda viadora, foi-lhes proposto reconhecerem por superiores a eles:
primeiro a Divindade, depois a humanidade santíssima que o Verbo assumiria, e em
seguida, sua Mãe puríssima.

Diferença entre os anjos

362. Nesta ocasião, quando os apóstatas foram castigados e os obedientes
premiados, guardando o Senhor a devida proporção segundo sua justíssima
eqüidade, eu escrevi : na recompensa acidental houve alguma diferença entre
os santos anjos, conforme os diversos sentimentos que demonstraram aos mistérios
do Verbo humanado e de sua Mãe puríssima, à medida que os foram conhecendo,
antes e depois da queda dos maus anjos.
Consistiu este prêmio acidental em serem escolhidos para assistir e servir
Maria Santíssima e o Verbo humanado, e no modo e forma de se manifestarem
quando apareciam visivelmente à Rainha para servi-la. É isto que pretendo
explicar neste capítulo, confessando minha incapacidade, pois é difícil traduzir
em razões e termos materiais as perfeições e operações de tão elevados
espíritos intelectuais.
No entanto, se passasse em silêncio este assunto, omitiria nesta
História uma grande parte das mais excelentes ocupações da Rainha do céu,
enquanto foi viadora. Depois dos atos que exercia com o Senhor, seu mais contínuo
trato era com seus ministros, os espíritos angélicos. Sem esta importante
exposição ficaria incompleta a descrição desta santíssima Vida.

Forma visível dos anjos

363. Supondo tudo o que já disse sobre as ordens, hierarquias e diferenças
destes mil anjos, direi aqui a forma na qual apareciam corporalmente à
sua Rainha e Senhora. Remeto as aparições intelectuais e imaginárias para
outros capítulos , onde intencionalmente falarei das diversas espécies de visões
que a Senhora gozava.
Os novecentos anjos escolhidos dos nove coros, cem de cada um, foram
nomeados entre aqueles que mais se distinguiram na estima, amor e admirável
reverência por Maria Santíssima. Quando lhe apareciam, vinham na forma de
jovem de extrema formosura e agrado, o corpo quase nada demonstrava de terreno,
porque era claríssimo e como um cristal animado e banhado de glória
imitando os corpos gloriosos e refulgentes.
À beleza uniam grande compostura e amável gravidade. As vestes eram
roçagantes, translúcidas, semelhantes a brilhante ouro esmaltado com matizes de
finíssimas cores, formando admirável e belíssimo conjunto para o olhar. Todo
aquele ornato visível, ainda que perceptível aos olhos, não era materialmente
tangível, nem se poderia pegar com a mão. Era semelhante à luz do sol quando
entra por uma janela e deixa ver os átomos do ar, mas incomparavelmente mais
bela e vistosa.

Beleza dos anjos

Traziam na cabeça coroa de finas e vivíssimas flores que desprendiam
suavíssima fragrância de perfumes não terrenos, suaves e espiritualizados.
Nas mãos levavam palmas tecidas de variedade e formosura, significando as
virtudes que Maria Santíssima praticaria e as coroas que conquistaria com tanta
santidade e glória. Coroas e palmas que estavam como a lhe oferecer antecipadamente,
de modo velado, mas com júbilo e alegria.
– No peito traziam certa divisa ou dístico, mais ou menos como os distintivos
dos hábitos das Ordens militares, com as palavras “Maria Mãe de Deus”.
Para aqueles santos príncipes eram de muita glória, adorno e beleza, mas a
Rainha não foram manifestados, até o momento em que concebeu o Verbo
encarnado.

Maria, Mãe de Deus

365. Esta divisa era admirável lo grande brilho que irradiava, salientando-
se entre os refulgentes adornos dos anjos. Variavam também nos reflexos
e raios, que representavam os diferentes mistérios e excelências desta
santa Cidade de Deus. Continham o maior renome e o mais sublime título e dignidade
que pode caber em pura criatura: “Maria Mãe de Deus”.
Com este elogio prestavam a suprema homenagem à sua Rainha e nossa,
ficando eles também honrados por lhes pertencer, e recompensados por se haverem
distinguido na devoção e veneração à criatura mais digna de ser
venerada entre todas. Mil vezes ditosa as que merecerem a singular correspondência
do amor de Maria e de seu Filho Santíssimo

profunda humildade, afetos tão ternos, que não se podem dignamente encarecer,
pois considerava-se inepta e indigna para tão inefável mistério e dignidade de
Mãe de Deus.

Os setenta serafins

367. Os setenta serafins, dos mais próximos ao trono e que assistiam
à Rainha, foram os que se salientaram na devoção e complacência da união
hipostática das duas naturezas, divina e humana, na pessoa do Verbo. Estando
mais próximos a Deus pelo conhecimento e amor, tiveram particular desejo de
que este mistério se realizasse no seio de uma mulher. A este sentimento lhes
correspondeu o prêmio de glória essencial e acidental. A esta última, de que
vou falando, pertenceu o encargo de assistir Maria Santíssima e aos mistérios
que nela se operaram.

Senhora do céu, mas de natureza humana e terrena. Cobriam-na em sinal de
veneração, reconhecendo-a suprema criatura entre todas, de incompreensível
dignidade e grandeza, imediata ao mesmo Deus, acima de todo o entendimento
e juízo criado. Também por isto encobriam os pés, significando que os passos
de tão elevados serafins, não podiam ser comparados aos de Maria por sua dignidade
e excelência.

Os serafins refletiam a divindade

Com as duas asas do peito voavam ou as estendiam, dando a entender
seu incessante movimento e vôo de amor para Deus, e o louvor e profunda
reverência que lhe prestavam. No interior do peito, como num espelho puríssimo
no seu modo de ser e agir, refletiam para Maria Santíssima os reflexos da Divindade,
pois enquanto viadora não era possível que Deus se lhe mostrasse continuamente
em si mesmo. Por este motivo ordenou a beatíssima Trindade que sua
Filha e Esposa tivesse nestes serafins, as criaturas mais próximas de sua Divindade,
uma viva imagem do original que Ela nem sempre podia ver claramente.

Comunicação angélica

370. Deste modo, gozava a divina Esposa, na ausência de viadora, do
retrato de seu amado. Abrasava-se toda a chama de seu santo amor, na vista e
comunicação com estes inflamados e supremos príncipes.
O modo de se comunicar com eles, além do sensível, era o mesmo que
eles usam entre si, os superiores ilustrando aos inferiores, como outras vezes
tenho dito . Não obstante, a Rainha lhes ser superior em dignidade e graça
em a natureza – como disse David, salmo 8, 6 – o homem foi feito inferior aos anjos,
e a ordem comum de transmitir e receber estas influências divinas, segue
a natureza e não a graça.

Os doze anjos das doze portas

371. Os outros doze anjos são os das doze portas de que S. João falou
no capítulo 21 do Apocalipse (v. 12) como acima disse . Distinguiram-se no afeto e
louvor de que Deus se encarnasse, a fim de ser mestre e companheiro dos homens,
para depois redimi-los e lhes abrir, com seus merecimentos, as portas do céu, tendo
por coadjutora sua admirável Mãe.
Consideraram particularmente estes santos anjos, as maravilhosas obras
e caminhos que Deus ensinaria para os homens alcançarem a vida eterna, simbolizados
nas doze portas correspondentes à doze tribos.
A recompensa desta singular devoção, foi serem por Deus nomeados
para testemunhas e secretários dos mistérios da Redenção, e colaboradores da
Rainha do céu no privilégio de ser mãe de misericórdia e medianeira dos que a Ela
recorrem para se salvar. Por isto. disse, acima que a Rainha se serve principalmente
destes doze anjos para amparar, esclarecer e defender seus devotos, e em
particular para os tirar do pecado, quando juntamente com Maria, eles invocam estes
anjos.

Ofícios dos doze anjos

Estes doze anjos lhe apareciam corporalmente, como falei dos primeiros, mas
levavam muitas coroas e palmas, reservadas para os devotos desta
Senhora. Serviam-na dando-lhe a conhecer a inefável piedade do Senhor
Io gênero humano. Inspiravam-na a louvá-lo e a pedir-lhe que usasse dessa
piedade com os homens. Para este fim enviava-os como portadores de suas
súplicas ao trono do eterno Pai.
Estes anjos eram mandados também para inspirar e socorrer os devotos
que A invocavam ou que Ela queria acudir e proteger. Mais tarde isso
aconteceria muitas vezes com os santos Apóstolos, a quem, por ministério dos
anjos, auxiliava nos trabalhos da primitiva Igreja. Até hoje, do céu, exercem estes
doze anjos o mesmo ofício, assistindo aos devotos de sua e nossa Rainha.
das e petições para o bem das almas.

Os anjos da Paixão
373. Os dezoito anjos que faltam para completar o número de mil, foram
os que se distinguiram na compaixão pelos sofrimentos do Verbo humanado;
por isto, foi grande seu prêmio e glória.
Apareciam a Maria Santíssima com admirável beleza, levando como ornamento
muitos distintivos da Paixão e de outros mistérios da Redenção. Tinham
o particular ornato de uma cruz no peito e outra no braço, ambas de singular formosura
e refulgente esplendor.
A vista de tão peregrino hábito despertava na Rainha grande admiração, a
mais tema e compassiva lembrança do que o Redentor do mundo haveria de padecer,
assim como fervorosa gratidão pelos benefícios que os homens receberiam dos
mistérios da Redenção e resgate de seu cativeiro. Servia-se a grande Princesa destes
anjos para enviá-los muitas vezes a seu Pilho Santíssimo, com diversas embaixada e
petições para o bem das almas.

Perfeições angélicas

374. Com a descrição das formas e divisas destes anjos, declarei
alguma coisa das perfeições e operações destes espíritos celestiais, porém muito
menos do que possuem. São uns invisíveis raios da Divindade, agilíssimos em
seus movimentos e operações, fortíssimos no poder, perfeitíssimos no entender sem
errar, imutáveis em suas capacidades e vontade; o que uma vez aprendem nunca
mais esquecem nem perdem de vista.
Acham-se repletos de graça e glória sem perigo de perdê-las. Sendo
incorpóreos e invisíveis, quando o Altíssimo quer conceder aos homens o
favor de os ver, tomam corpo aéreo e aparente, adequado ao sentido e à finalidade
para a qual o assumem.
Todos estes mil anjos da Rainha Maria eram dos superiores, de suas
respectivas ordens e coros, consistindo esta superioridade principalmente no grau
de graça e glória.
Assistiram à guarda desta Senhora, sem faltar um instante, durante sua
vida santíssima, e agora no céu têm especial e acidental gozo com sua vista e
companhia. Ainda que alguns deles são distintamente enviados por Ela, todos mil
servem para este ministério, em algumas ocasiões que a disposição divina determina.

DOUTRINA QUE ME DEU A RAINHA DO CÉU.

Gratidão a Deus por nos ter dado anjos custódios

Minha filha, em três recomendações quero te dar a doutrina deste capítulo. A primeira, para seres agradecida,
com eterno louvor e reconhecimento, ao benefício de Deus em te dar anjos
para te assistir, ensinar e guiar em tuas tribulações e trabalhos.
Ordinariamente esquecem os mortais esta graça, com odiosa ingratidão
e detestável grosseria. Não consideram a divina misericórdia e benignidade
do Altíssimo em mandar estes santos príncipes para assistir, guardar e
defender criaturas terrenas, cheias de misérias e culpas, sendo eles de natureza
tão superior e espiritual, cheios de tanta glória, dignidade e beleza. Com este esquecimento
privam-se os ingratos homens de muitos favores dos mesmos anjos, e irritam ao Senhor. Tu, porém,
caríssima, reconhece esta graça e a ela corresponde com todas as tuas forças.

Respeito à presença do Anjo

376. A segunda recomendação seja que, sempre e em todo lugar, tenhas
amor e reverência a estes divinos espíritos, como se os visse com os olhos do
corpo. Vive advertida e circunspecta na presença dos cortesãos do céu, e não te
atrevas a proceder diante deles como não procederias diante de outras criaturas.
Não deixes de fazer no serviço do Senhor o que eles fazem e de ti desejam.
Lembra-te que eles estão sempre vendo a face de Deus (Mt 18, 10), como
bem-aventurados, e quando ao mesmo tempo te olham, nada vejam menos decente.
Agradece-lhes por te guardarem defenderem e ampararem.

Docilidade às inspirações do anjo

A terceira recomendação, é para viveres atenta aos chamamentos,
avisos e inspirações com que eles te despertam, movem e iluminam, para dirigir tua
mente e coração à lembrança do Altíssimo, e ao exercício de todas as virtudes. Considera
quantas vezes tu os chamas e eles te atendem. Sempre que os procuras os encontras.
Todas as vezes que lhes pediste notícias de teu amado as têm dado. Quantas
outras te chamaram ao amor de teu Esposo e repreenderam bondosamente teus descuidos
e omissões!
E, quando por tuas fraquezas e tentações perdeste a direção da luz, eles
te esperaram, suportaram e te esclarecendo trouxeram de novo ao caminho
certo das justificações e testemunhos do Senhor. Não esqueças quanto deves a
Deus por este benefício, mais do que muitas nações e gerações. Esforça-te por
ser grata a teu Senhor e aos anjos, seus ministros.

 

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