ESTUDO 22 – MÍSTICA CIDADE DE DEUS – ESCOLA DA VONTADE DIVINA


MEDITAÇÃO

CAPITULO 18

PROSSEGUE O MISTÉRIO DA CONCEIÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA COM A SEGUNDA PARTE DO CAPÍTULO 21 DO APOCALIPSE.

 

Maria, refúgio dos homens

  1. Sem revelar à alma de Maria Santíssima tudo quanto este decreto ou promessa continha, mandou-lhe o Senhor, naquele primeiro instante, que orasse afetuosamente por todas as almas. Que solicitasse sua eterna salvação, especialmente daqueles que durante a vida a Ela recorressem. Concedeu-lhe a Santíssima Trindade que naquele justíssimo tribunal, nada lhe seria negado. Mandou-lhe que subjugasse o demônio e, com o império e virtude que lhe comunicaria o braço do Onipotente, o afastasse das almas. Mas não lhe deu a entender que seria Mãe do Verbo, razão de lhe ser concedido este favor e os demais nele compreendidos. Ao dizer S. João que a cidade tinha um grande e alto muro, entendeu este benefício feito por Deus à sua Mãe, constituindo-a sagrado refúgio, amparo e defesa de todos os homens. Nela tudo encontrariam, como cidade fortificada e segura muralha contra os inimigos. Poderosa Rainha e Senhora da criação, dispenseira dos tesouros do céu e da graça, a Ela recorreriam todos os filhos de Adão. Disse ainda, que era muito alto este muro, porque o poder de Maria puríssima para vencer o demônio e elevar as almas à graça é o mais próximo do poder de Deus. Tão guarnecida e segura é esta cidade, para si e para os que nela procuram proteção que, fora de Deus, todas as forças criadas não poderiam tomá-la, nem sequer escalar os seus muros.

Os doze anjos, ministros de Maria

  1. 0 muro da cidade santa tinha doze portas (v. 12). Além de sua entrada ser franca para todos os povos e gerações, sem excluir nenhum, todos são convidados a entrar. Ninguém, se o quiser, fica privado da graça, dons e glórias que o Altíssimo lhes quer conceder, por meio desta Rainha e Mãe de misericórdia. E nas doze portas, doze anjos. Estes doze príncipes são os que acima citei e faziam parte dos mil designados para a guarda da Mãe do Verbo encarnado. Além de assistirem à Rainha, o ministério destes doze anjos foi servi-la, particularmente, em inspirar e defender as almas que devotamente a chamarem em seu socorro e se distinguirem em sua veneração e amor. Por isto, diz o Evangelista que os viu nas portas desta cidade, ministros e agentes que auxiliam, inspiram e convidam os mortais a entrarem na eterna felicidade pelas portas da piedade de Maria Santíssima. Muitas vezes Ela os envia, com inspirações e graças, para livrar de perigos corporais ou espirituais aos devotos que a invocam. Os doze anjos, protetores dos devotos de Maria.
  2. Tinham uns nomes inscritos que são as doze tribos dos filhos de Israel. Recebem os santos anjos nomes relativos ao ofício e ministério para os quais são enviados ao mundo. Estes doze príncipes assistiam à Rainha do céu, particularmente, na salvação dos homens. Como todos os escolhidos são figurados pelas doze tribos de Israel. Por esta razão, diz o Evangelista, aqueles anjos traziam os nomes das doze tribos, como se fosse um anjo para cada tribo. Guardariam e protegeriam os que, em todos os tempos e nações, entrariam na celeste Jerusalém por estas portas da intercessão de Maria Santíssima.

Maria co-redentora e dispenseira das graças

  1. Admirando-me desta grandeza de Maria puríssima e de que Ela fosse medianeira e porta para todos os predestinados, foi-me dado a entender que este privilégio corresponde ao seu ofício de Mãe de Cristo e dos homens. Pelo fato de haver dado com seu puríssimo sangue e substância, corpo humano no qual seu Filho Santíssimo sofresse e redimisse os homens, de certo modo ela morreu e padeceu em Cristo, em consequência dessa identificação de carne e sangue. Além disso, acompanhou-o em sua paixão e morte e, com divina humildade e fortaleza, a quis sofrer no modo que lhe foi possível. Assim como cooperou na paixão e deu a seu Filho com que padecer pelo  gênero humano, também o Senhor a fez participante da dignidade de Redentora e entregou-lhe os méritos e frutos da Redenção, para deles ser a única dispensadora aos redimidos. Oh! admirável tesoureira e depositária de Deus! Que seguras estão em tuas divinas e liberais mãos, as riquezas da destra do Onipotente! “Tinha esta cidade três portas ao oriente, três portas ao setentrião, três portas ao meio-dia e três portas ao ocidente ” (v. 13). Três portas para cada parte do mundo. Por estas três portas, introduz os mortais para receberem tudo quanto o céu e a terra possuem: Aquele que deu ser a tudo o que existe, as três divinas pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. Cada uma delas deseja que Maria solicite, livremente, os tesouros divinos para os mortais. Ainda que seja um só Deus, cada uma das pessoas dá entrada franca a esta puríssima Rainha. No tribunal do Ser imutável da Santíssima Trindade, lhe é concedido interceder, pedir, e tirar tesouros para dá-los aos devotos de todo o mundo que a invocam. Nenhum dos mortais de qualquer lugar, tempo e nação em toda a terra, tem desculpa de não entrar, pois em todas as direções há, não uma, e sim três portas. Se entrar numa cidade por uma porta aberta e franca é tão fácil, quem não entra, não é por falta de porta, mas porque não quer entrar nem se pôr a salvo. Que dirão aqui os infiéis, hereges e pagãos? Que dirão os maus cristãos e obstinados pecadores? Se os tesouros do céu estão nas mãos de nossa Mãe e Senhora, se Ela nos chama e solicita por meio de seus anjos, se é porta e muitas portas do céu, como são tantos os que ficam de fora e tão poucos os que por elas entram?

Maria, sustentáculo da Igreja

  1. E o muro desta cidade tinha doze fundamentos e neles os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro” (v. 14). Os inabaláveis e sólidos fundamentos sobre os quais Deus edificou a cidade santa de Maria sua Mãe, foram todas as virtudes sob especial direção do Espírito Santo. O número doze com os doze nomes dos apóstolos, significa que foi fundada sobre a mais alta santidade, que vem a ser a dos apóstolos, os maiores entre todos os santos. Assim diz Davi (SI 86, 2) que os fundamentos da cidade de Deus foram postos sobre os montes santos. Outra razão é porque a santidade de Maria e sua sabedoria foi o apoio e segurança dos apóstolos, depois da morte de Cristo e sua subida ao céu. Sempre fôra sua Mestra e modelo, mas naquela ocasião, Ela só foi o maior sustentáculo da primitiva Igreja. Por haver sido destinada para este ministério com as devidas graças e virtudes, desde sua imaculada conceição, por isto diz a Escritura que seus fundamentos eram doze.

A grandeza de Maria foi medida pela de Cristo

  1. E aquele que falava comigo tinha uma medida de cana de ouro, e mediu a cidade com esta cana até doze mil estádios (v. 15,16,17). Nesta medida encerrou o Evangelista grandes mistérios sobre a dignidade, graças, dons e méritos da Mãe de Deus. Ainda que a mediram com grande medida, na dignidade e benefícios que o Altíssimo lhe concedeu; a medida ajustou-se perfeitamente ao que era medido. O comprimento foi igual à largura, sem que Nela houvesse falta, excesso ou desproporção; foi igual e proporcional em todos os lados. Nisto não me detenho agora, remetendo-me ao que direi em todo o decurso da história de sua vida. Somente advirto que esta dimensão pela qual se calculou a dignidade, méritos e graça de Mari a Santíssima foi a humanidade de seu Filho unida ao Verbo divino.

Proporção entre Cristo e Maria

  1. A medida era uma cana. símbolo da fragilidade da natureza humana, e de ouro, figura da divindade do Verbo. A dignidade de Cristo, Deus e homem verdadeiro, os dons da natureza humana unida à divina pessoa com os merecimentos que adquiriu, foram o padrão empregado pelo Senhor para dotar sua Mãe Santíssima. Foi Ele quem a mediu consigo mesmo, e ao ser assim medida, Ela pareceu ficar igual, na proporção e altura de sua dignidade de Mãe. Na longitude de seus dons e graças, e na latitude de seus méritos foi igual, sem falta nem desproporção. É verdade que não pôde medir-se com seu Filho Santíssimo, com igualdade absoluta e matemática. Cristo, Senhor nosso, era homem e Deus verdadeiro, enquanto Ela era pura criatura, pelo que, a medida a excedia infinitamente. Todavia, Maria Santíssima teve certa igualdade de proporção com seu Filho. Assim como a Ele nada faltou do que lhe competia como Filho verdadeiro de Deus, assim a Ela nada faltou, do que lhe era devido como a Mãe verdadeira do mesmo Deus. Deste modo, Ela como Mãe, e Cristo como Filho, tiveram igual proporção na dignidade, graças, dons e merecimentos. Nenhuma graça criada teve Cristo, que também não estivesse, na devida proporção, em sua Mãe puríssima.

A medida dos predestinados

  1. Mediu a cidade com a cana até doze mil estádios (v. 16)” Esta medida de estádios com a uai foi medida Maria puríssima em sua conceição, e o número de doze mil encerram altíssimos mistérios. 0 Evangelista chamou estádios, a medida perfeita com que se mede a alteza da santidade dos predestinados. Esta grandeza depende dos dons de graça e glória que Deus, em sua mente e eterno decreto, dispôs comunicar-lhes por meio de seu Filho humanado. Tudo foi contado e determinado pela sua infinita equidade e misericórdia. Por estes estádios são medidos todos os escolhidos, suas virtudes e méritos. Infelicíssimo aquele que não chegar a atingir esta medida, nem se ajustar com ela, quando o Senhor o medir! O número doze mil inclui todos os predestinados e escolhidos. Estão reunidos sob as doze cabeças destes milhares, os doze apóstolos, príncipes da Igreja Católica, assim como no capítulo VII do Apocalipse (v. 4) estão simbolizados pelas doze tribos de Israel. Todos os eleitos deveriam abraçar a doutrina que os apóstolos do Cordeiro ensinaram, como acima também disse na explicação deste capítulo.

Maria ultrapassa toda a criação reunida

  1. De tudo isto se deduz a grandeza desta cidade de Deus, Maria Santíssima. Se a cada estádio damos pelo menos 125 passos, imensa pareceria uma cidade que tivesse doze mil estádios Ao ser medida Maria, Senhora nossa, pelos estádios com que Deus mede aos predestinados, da altura, comprimento e largura, de todos reunidos nada sobrou. A todos juntos igualou quem era Mãe do mesmo Deus, Rainha e Senhora de todos, e só nela pôde caber mais do que no resto de toda a criação.

Firmeza das virtudes de Maria

  1. “Mediu seu muro até cento e quarenta e quatro côvados com medida de homem que é de anjo” (v. 17). Esta dimensão do muro da cidade de Deus, não foi do comprimento mas da altura. Sendo os estádios do quadrilátero da cidade doze mil por doze mil, iguais em todos os lados, era forçoso que o muro fosse um pouco maior, principalmente na superfície externa, para poder encerrar dentro de si toda a cidade. Enquanto a medida de cento e quarenta e quatro covados quaisquer que fossem, seria pequena para muros de tão extensa cidade, era bastante proporcionada para a altura destes muros que constituíam segura defesa para quem lá habitasse. Esta altura representa a segurança que em Maria Santíssima encontram todos os dons e graças, tanto os de santidade como os de dignidade, nela depositados pelo Altíssimo. Para dar a entendê-lo, diz que a altura era de cento e quarenta e quatro côvados, número divisível, compreendendo três muros: grande, médio e pequeno, correspondentes às ações da Rainha em matéria maior, mediana e menor. Não que nela houvesse coisa pequena, mas porque sendo atos de matérias diferentes, também sua importância o era. Uns atos eram milagrosos e sobrenaturais, outros eram de virtudes teologais, quer interiores, quer exteriores. A todas as ações deu tanta plenitude de perfeição que, nem pelas grandes deixou as pequenas de obrigação, nem por estas faltou às superiores. Realizou-as com tão suprema santidade e agrado do Senhor, que se elevou à medida de seu Filho santíssimo, assim nos dons naturais como nos sobrenaturais. Esta foi a medida do homem-Deus, o Anjo do grande conselho, superior a todos os homens e anjos, excedidos, na devida proporção, por Mãe e Filho. Prossegue o Evangelista:

A humildade velava a grandeza de Maria

  1. “E o muro era construído de pedra de jaspe’* (v. 18). Os muros de uma cidade são os primeiros a serem vistos por quem a vê. A variedade dos reflexos, cores e sombras que contém o jaspe, material dos muros desta cidade de Deus, Maria Santíssima, significa a inefável humildade que acompanhava e encobria todas as graças e excelências desta grande Rainha. Sendo digna Mãe de seu Criador, isenta de toda mácula de pecado e imperfeição, apareceu aos homens sob a sombra da lei comum dos demais filhos de Adão, sujeita às exigências e penalidades da vida natural, como em seus lugares direi. Contudo, este jaspe e estas sombras, reais nas outras mulheres, Nela eram apenas aparentes e serviam à cidade de inexpugnável defesa. Por dentro era de puríssimo ouro, semelhante a um vidro limpidíssimo. Isto exprime que tanto na formação de Maria Santíssima, como depois no decurso de sua vida inocentíssima, jamais houve mácula (Ct 4,7) que obscurecesse sua cristalina pureza. A mancha ou sombra, ainda que seja de um átomo, que caísse no vidro ao ser fabricado, nunca mais desapareceria. Seria sempre uma sombra em sua transparência, claridade e pureza. Da mesma forma, se Maria Santíssima em sua conceição houvera contraído a mancha ou sombra do pecado original, este sempre seria notado, e com esse defeito não poderia ser vidro puro e limpidíssimo. Tampouco seria ouro puro, pois sua santidade teria tido a liga do pecado original a diminuir seus quilates. Pelo contrário, foi de ouro e vidro esta cidade, porque puríssima e semelhante à Divindade.
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