Estudo 18 – Mística Cidade de Deus – Escola da Vontade Divina


MEDITAÇÃO
CAPITULO 15
A CONCEPÇÃO IMACULADA DE MARIA MÃE DE DEUS PELA VIRTUDE DO PODER DIVINO.

209. A divina Sabedoria já preparara tudo para fazer surgir a Mãe da graça ilesa da mancha que contaminava toda a natureza. Estava completo o número dos antigos patriarcas e profetas, e estabelecidos os altos montes sobre os quais seria edificada esta mística cidade de Deus (SI 86, 2).
Com o poder de sua destra, reservara incomparáveis tesouros de sua divindade para dotá-la e enriquecê-la. Para sua escolha, custódia e serviço, estavam designados mil anjos fidelíssimos à sua Rainha e Senhora. Preparou-lhe uma estirpe real e nobilíssima da qual descendesse, e escolheu-lhe pais perfeitíssimos dos quais diretamente nascesse. Se naquele século houvera melhores e mais idôneos, para serem pais daquela que o mesmo Deus escolhia por Mãe, os teria eleito o Altíssimo.

Preparação dos pais

210. Preparou-os com abundantes graças e bênçãos de sua destra, e os enriqueceu com todo o gênero de virtudes, luz da divina ciência e dons do Espírito Santo.

Depois de haver anunciado aos dois santos, Joaquim e Ana, que teriam uma filha admirável e bendita entre as mulheres, executou-se a primeira concepção, a do corpo puríssimo de Maria.
Quando se casaram tinha Sant Ana vinte e quatro anos e Joaquim quarenta e seis. Depois do matrimônio passaram vinte anos sem ter filhos, e assim no tempo da concepção da filha, contava a mãe quarenta e quatro anos, e o pai sessenta e seis.
Ainda que essa concepção realizou-se pela ordem comum das demais, a virtude do Altíssimo lhe tirou aparte imperfeita e desordenada. Deixou-lhe apenas o necessário para a natureza administrar a devida matéria à formação do corpo mais perfeito que jamais houve, nem poderá haver em pura criatura.

Natureza e graça na concepção de Maria

211. Moderou Deus a natureza dos pais e a graça antecipou-a, para que no ato não houvesse culpa nem imperfeição, mas virtude e merecimento. O modo foi o natural e comum, porém, controlado, corrigido e aperfeiçoado com a força da divina graça, para esta produzir seu efeito sem estorvo da natureza.
Na santíssima Ana resplandeceu mais a virtude do alto pela sua natural esterilidade. De sua parte, a cooperação foi milagrosa no modo e na substância mais pura, porque sem milagre não poderia conceber.
A concepção operada só pela ordem natural, não depende imediatamente de causas sobrenaturais, mas somente dos pais. Concorrem naturalmente para o efeito da propagação e também administram a matéria com imperfeição e sem medida determinada.

212. Nesta concepção, porém, ainda que o pai não fosse naturalmente infecundo, pela idade e temperança, já estava com a natureza corrigida e quase inativa. Por isto, foi pela divina virtude
animada, reparada e prevenida de modo que pôde agir de sua parte com toda perfeição e medida das potências, e proporcionalmente à esterilidade da mãe.
Em ambos cooperaram a natureza e a graça; aquela controlada e apenas indispensável e esta superabundante, poderosa, excessiva para sobrepujar a natureza, não a suprimindo, mas realçando-a e melhorando-a por modo milagroso.
Desta maneira foi notório que a graça tomara por sua conta esta concepção, servindo-se da natureza apenas o indispensável para que esta inefável filha tivesse pais naturais.
Santa¨Ana era estéril; concebeu por milagre.

213. O modo de superar a esterilidade da santa mãe Ana, não foi restituindo-lhe a natural capacidade que lhe faltava para conceber, para que assim restituída concebesse como as demais mulheres, sem diferença.
O Senhor agiu sobre a potência estéril de outro modo mais milagroso, para que administrasse a matéria natural da qual seria formado o corpo. A potência e a matéria foram naturais. Mas a maneira de agir foi por milagrosa intervenção da virtude divina. Cessando o milagre desta admirável concepção, permaneceu a mãe em sua antiga esterilidade para não conceber mais, porque nada foi tirado ou acrescentado à sua natural incapacidade.
Este milagre, parece-me, pode-se explicar por aquele que operou Cristo Senhor nosso (Mt 14,29) quando São Pedro andou sobre as águas. Para sustentá-lo, não foi necessário endurecê-las nem transformá-las em cristal ou gelo sobre o qual qualquer pessoa poderia andar, sem outro milagre do que o de endurecê-las.
Sem transformá-la em duro gelo, nelas agindo milagrosamente, pôde o Senhor fazer que sustentassem o corpo do Apóstolo.

Passado o milagre, as águas permaneceram líquidas como estavam antes enquanto São Pedro andava sobre elas, tanto que em certo momento começou a afundar-se. Isto prova que, sem alterar sua natureza, o milagre se operou mediante uma influência especial.

Na concepção de Maria a graça superou a natureza

214. Muito semelhante a este, ainda que mais admirável, o milagre de Ana, mãe de Maria Santíssima, conceber.
Foram seus pais dirigidos pela graça, tão abstraídos da concupiscência e deleite, que faltou aqui à culpa original o acidente imperfeito que ordinariamente acompanha a matéria ou instrumento pelo qual se comunica. Só existiu a matéria despida de imperfeição, sendo meritória a ação.
Por esta parte pôde bem resultar sem pecado esta concepção, tendo também a divina Providência assim determinado. Reservou o Altíssimo este milagre somente para Aquela que seria sua
digna Mãe. Sendo conveniente que, no essencial de sua concepção, fosse engendrada pela ordem dos demais filhos de Adão, foi devido e convenientíssimo que respeitada a natureza, com ela cooperasse a graça em toda a sua virtude e poder.
Em Maria a graça deveria ostentar-se mais eficaz do que em Adão e Eva e toda sua descendência, pois foram eles os causadores da corrupção da natureza com sua desordenada concupiscência.

Perfeição do corpo de Maria

215. Nesta formação do corpo Puríssimo de Maria, andou tão vigilante, ao nosso modo de ver, a sabedoria e o poder do Altíssimo, que o plasmou com exato peso e medida, na quantidade e qualidade dos quatro humores naturais: sangüíneo, melancólico, fleumático e colérico.
A proporção perfeitíssima desta compleição deveria ajudar, sem impedimentos, as operações da alma tão santa como a que animaria esse corpo.
Este milagroso temperamento foi depois, como o princípio e causa, em seu gênero, para a serenidade e paz que conservaram as faculdades da Rainha do céu durante toda a sua vida. Nenhum destes humores, lhe faria guerra nem contradição, nem predominaria sobre os outros, mas ajudavam-se e serviam-se reciprocamente, para a conservação daquele ordenadíssimo organismo, sem corrupção e deterioração alguma.
Jamais as sofreu o corpo de Maria Santíssima. Não lhe faltou nem lhe sobrou coisa alguma. Todas as qualidades e quantidades lhe foram sempre proporcionadas e justas, sem mais nem menos umidade ou secura do que a necessária para sua conservação; sem mais calor do que o bastante para sua defesa e combustão; sem mais frialdade do que a exigida para refrigerar e arejar os demais humores.

O corpo de Maria era extremamente sensível

216. Pelo fato de sua admirável constituição, não deixou este corpo de sentir as inclemências do calor, frio e demais influências dos astros. Por ser mais medido e perfeito, tanto mais sentia qualquer excesso contrário, por ter menos com que dele se defender. Ainda que em tão admirável compleição, os contrários achavam menos em que agir e alterar, contudo, pela sua delicadeza, era mais sensível no pouco, que outros corpos no muito Aquele milagroso corpo em formação no ventre de Sant’Ana, antes de ter alma não era capaz de dons espirituais, mas o era para os dons naturais. Estes lhe foram concedidos por ordem e virtude sobrenatural, com tais condições como convinham para o singular fim a que se ordenava aquela formação, superior a qualquer ordem da natureza e graça. Deste modo, lhe foram dadas compleição e potências tão excelentes que a natureza, só por si, jamais poderia formar outras semelhantes.

Maria, mais perfeita que Adão e Eva

217. Nossos primeiros pais, Adão e Eva, formados pela mão do Senhor com as condições convenientes a seu estado de inocência e justiça original, seriam superiores em excelência aos seus próprios descendentes, caso os tivessem naquele mesmo estado, porque as obras produzidas diretamente por Deus são mais perfeitas.
Semelhantemente, com mais excelente e superior modo, operou sua onipotência na formação do corpo virginal de Maria Santíssima. Empregou nele providência e graça tanto maiores quanto esta criatura excedia, não somente aos primeiros pais que tão logo haviam de pecar, mas ainda a todo o resto das criaturas corporais e espirituais.
Ao nosso modo de entender, pôs Deus maior atenção em compor aquele corpinho de sua Mãe, do que na criação de todos os orbes celestes e quanto eles encerram. Por esta regra se hão de começar a medir os dons e privilégios desta cidade de Deus, desde os primeiros alicerces e fundamentos sobre os quais começou a se elevar sua grandeza, até chegar a ser a mais próxima e imediata da infinidade do Altíssimo.

Isenção do pecado e de sua concupiscência

218. Esta miraculosa concepção esteve absolutamente inatingível ao pecado e à sua concupiscência. Não tocou a Autora da graça, sempre distinguida e tratada com esta dignidade. Além disso, seus pais ao concebê-la, receberam o controle da concupiscência para que ela não se excedesse. Não devia perturbar a natureza que, nesse caso, estava sujeita à graça e apenas servia de instrumento ao supremo Artífice, senhor das leis, tanto da natureza como da graça.
Assim, desde aquele momento, já começava a destruir o pecado e minar e abater a fortaleza daquele forte armado (Lc 11, 22), para derrubá-lo e despojá-lo do que tiranicamente usurpara.

Desenvolvimento do corpo de Maria até a infusão de sua alma

219. A primeira concepção do corpo de Maria Santíssima sucedeu num domingo, correspondente ao dia da criação dos anjos, de quem seria rainha, senhora, superior a todos.
Para a formação e crescimento dos demais corpos são necessários, segundo a ordem comum e natural, muitos dias para se organizarem e receberem a última disposição para neles ser infundida a alma racional. Dizem que para o sexo masculino se requerem quarenta e para o feminino oitenta, mais ou menos, conforme o calor natural e organismo das mães.
Na formação corporal de Maria Santíssima, a virtude divina apressou o tempo natural, e o que em oitenta dias, ou nos que naturalmente eram necessários, se havia de fazer, foi mais perfeitamente organizado em sete. Durante eles foi preparado aquele milagroso corpo, com o devido crescimento, no seio de Sant’ Ana, para receber a alma santíssima de sua filha, Senhora e
Rainha nossa.

Criação da alma de Maria

220. No sábado seguinte a esta primeira concepção, fez-se a segunda, criando o Altíssimo a alma de sua Mãe e infundindo-a em seu corpo. Surgiu no mundo a pura criatura mais santa, perfeita
e agradável a seus olhos, de quantas criou e criará até o fim do mundo e por suas eternidades.
Empregou o Senhor misteriosa atenção em relacionar esta obra com a criação dos sete dias, referida no Gênesis.
Realizando aquele simbolismo, sem dúvida descansou, depois de haver criado a suprema criatura, com a qual dava princípio à Encarnação do Verbo e a redenção do gênero humano. Para Deus e para as demais criaturas, este dia foi festivo e de repouso.

A alma de Maria foi criada num sábado

221. Por causa deste mistério da concepção de Maria Santíssima, ordenou o Espírito Santo que na santa Igreja o sábado fosse consagrado à Virgem. Foi o dia em que lhe fez o maior benefício, criando sua alma santíssima reunindo-a ao corpo, sem resultar o pecado original nem efeito seu.
O dia de sua conceição celebrado hoje na Igreja, lembra não o da primeira conceição do corpo, mas o da segunda, a saber, a infusão da alma. Desde esta conceição até a Natividade, esteve nove meses exatos no seio de Sant’Ana.
Nos sete dias antes da infusão da alma, esteve só a matéria organizando-se e se dispondo pela virtude divina. Deste modo, a criação de Maria correspondeu à criação de todas as criaturas que formaram o mundo em seu princípio e vem narrada por Moisés (Gn 1,1).
O instante da criação e infusão da alma de Maria Santíssima, foi aquele no qual a beatíssima Trindade, com maior afeto de amor do que quando refere Moisés (Gn 1,26), disse aquelas palavras: – Façamos Maria à nossa imagem e semelhança, nossa verdadeira Filha e Esposa, para Mãe do Unigênito da substância do Pai.

Aparecimento de Maria, novo céu e nova terra

222. Com a força desta divina palavra e do amor com que procedeu da boca do Onipotente, foi criada e infundida no corpo de Maria Santíssima sua alma felicíssima. *
No mesmo instante encheu-a de graças e dons superiores aos dos mais altos serafins do céu, sem ter existido momento no qual se encontrasse despida ou privada do amor amizade e luz de seu Criador.
Não pôde tocá-la a mancha e obscuridade do pecado original, mas achou-se em perfeitíssima e suprema justiça, superior a de Adão e Eva ao serem criados.
Foi-lhe também concedido perfeitíssimo uso da razão, correspondente aos dons da graça que recebia, a fim de não ficarem um só instante inativos, mas para desde logo, produzirem admiráveis
atos de sumo agrado para seu Criador.
Na inteligência e luz deste grande mistério confesso-me absorta. Enquanto o coração, por minha incapacidade para explicá-lo se desfaz em afetos de admiração e louvor, minha língua emudece.

Vejo construída e enriquecida a verdadeira arca do testamento, colocada no templo de mãe estéril com mais glória que sua figurativa na casa de Obededon (2Rs 6,11-12), na de David e no templo de Salomão (3Rs 8,6).
Vejo edificado o altar no Sancta Sanctorum (Idem 6 a v . 16) onde será oferecido o primeiro sacrifício que vencerá e aplacará a Deus.
Vejo a natureza sair de sua ordem para ser ordenada. Vejo estabelecerem-se novas leis contra o pecado, não sendo observadas as comuns quer da culpa, quer da natureza, quer da mesma graça.
Começa a existência de novos céus e nova terra (Is 65, 17), sendo o primeiro deles o seio de uma humilde mulher.
Nele concentra sua atenção a Santíssima Trindade, assistem numerosos cortesãos do antigo céu e mil anjos são destinados para fazer guarda ao tesouro de um animado corpozinho, do tamanho de uma abelhinha.
*
Não se duvide da Imaculada Conceição

223. Nesta nova criação ouço ressoar com mais força aquela voz do Criado** ao dizer, comprazendo-se na obra de sua onipotência, que ela é muito boa (Gn 1,31).
Com humildade, aproxime-se desta maravilha a fraqueza humana. Confesse a grandeza do Criador e agradeça o novo benefício concedido a toda a linhagem humana recebendo sua Reparadora. Terminem já os indiscretos zelos e porfias, vencidos pela luz divina.
Se a bondade infinita de Deus, conforme me foi mostrado na conceição de sua Mãe Santíssima, olhou para o pecado original com ira e repugnância; se se gloriou de ter justa causa e oportuna ocasião para repeli-lo e vedar sua corrente; como à ignorância humana pode parecer bem o que a Deus foi tão aborrecível?

Efeitos em Sant’Ana

224. No momento de infundir a alma no corpo desta divina Senhora, quis o Senhor que Ana, sua santa mãe, sentisse de modo altíssimo a presença da divindade.
Cheia do Espírito Santo, repleta interiormente de júbilo e devoção superiores a suas forças ordinárias, foi arrebatada num soberano êxtase. Nele recebeu altíssimas inteligências de ocultos mistérios, e louvou ao Senhor com novos cânticos de alegria.
Estes efeitos lhe duraram até o fim da vida. Foram, todavia, maiores durante os nove meses que trouxe em seu seio o tesouro do céu. Durante este tempo, esses benefícios foram-lhe renovados mais freqüentemente e acompanhados pela inteligência das divinas Escrituras e de seus profundos mistérios. Ó mulher felicíssima!
Chamem-te bem-aventurada, e louvem-te todas as nações e gerações do mundo!

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