Estudo 13 – Mistica Cidade de Deus – Cap11-1 Escola da Vontade Divina


MEDITAÇÃO
CAPITULO 11
NA CRIAÇÃO DE TODAS AS COISAS O SENHOR TEVE PRESENTE A CRISTO SENHOR NOSSO E SUA MÃE SANTÍSSIMA. ESCOLHEU E BENEFICIOU SEU POVO, E POR FIGURAS REPRESENTOU ESTES MISTÉRIOS.

Cristo e Maria, primeiras criaturas ideadas pelo Pai

134. No Capítulo VIII dos Provérbios (Pr 8,30) diz a Sabedoria, falando de si mesma, que na criação de todas as coisas se achou presente com o Altíssimo, compondo-as todas.

Eu disse acima que esta Sabedoria é o Verbo humanado que juntamente com sua Mãe Santíssima achava-se presente, quando Deus em sua mente divina determinava a criação do universo.
Naquele instante, estava não só o Filho com o Eterno Pai e o Espírito Santo na unidade da natureza divina, mas também a humanidade que havia de assumir, ocupando o primeiro lugar na criação prevista e ideada na mente divina do Pai. Com essa humanidade encontrava-se a de sua Mãe Santíssima de cujo puríssimo ventre a receberia.
Em Cristo e Maria estiveram previstas todas as demais obras e por causa deles, a nosso modo de falar, o Altíssimo sentiu-se mais empenhado a criar o restante das criaturas preparadas para o serviço do homem, do que o poderia desobrigar do gênero humano e até os anjos.

Cristo e Maria, tipos da semelhança com Deus

135. Contemplava o Altíssimo seu Filho Unigênito humanado e sua Mãe Santíssima, como os modelos plasmados com a grandeza de sua sabedoria e poder.
Eram os originais por onde seria copiada toda a linhagem humana. Deste modo, assemelhando-se a estas duas imagens da sua Divindade, todos os demais sairiam também semelhantes a Deus.
Criou, além disso, as coisas materiais, necessárias para a vida humana, com tal sabedoria, que muitas serviriam de símbolos para representar, de algum modo, aos dois principais objetos que principalmente Deus tinha em vista e a quem elas serviriam: Cristo e Maria.
Assim, formou os dois luminares do céu, sol e lua (Gn 1,16) que, separando a noite e o dia, se assemelhariam ao sol de justiça, Cristo e a sua Mãe Santíssima, formosa como a lua (Ct 6,9). Separam a luz e dia da graça, da noite das trevas do pecado. Com suas contínuas influências o sol ilumina a lua, e ambos a todas as criaturas, desde o firmamento com seus astros até as mais ínfimas em todo o universo.

O homem é criado para conhecer e amar a Deus

136. Criou as demais coisas, aumentando-Ihes a perfeição por considerar que haviam de servir a Cristo e Maria Santíssima, e por eles aos demais homens.
Antes de tirar a estes do nada, preparou-lhes deliciosa, abundante, segura e mais célebre mesa que a de Assuero (Est 1, 3).
Como os havia de criar para sua alegria e convidá-los às delícias de seu conhecimento e amor, cortês e generoso Senhor não quis que o convidado esperasse. Ser criado e achar-se sentado à mesa do divino  conhecimento e amor seria uma só coisa, não adiando o que tanto importava ao homem; o reconhecimento e louvor de seu Criador.

Criação de Adão e Eva semelhantes a Cristo e Maria

137. No sexto dia da criação (Gn1,27) formou e criou Adão na compleição física de 33 anos, idade em que Cristo havia de morrer, e tão parecido à sua humanidade santíssima, que no corpo era mínima a diferença, e a alma semelhante à sua quanto à natureza.
De Adão formou Eva, tão semelhante à Virgem que a reproduzia nas feições e em toda a pessoa. Contemplava o Senhor, com sumo agrado e benevolência, estes dois retratos dos originais que oportunamente criaria. Por causa destes lhes concedeu muitas bênçãos, como para se entreter com eles e seus descendentes, enquanto esperava o dia no qual havia de formar Cristo e Maria.

Inveja de Lúcifer pelos primeiros homens.

138. Todavia, o feliz estado no qual Deus criara os dois primeiros pais do gênero humano durou muito pouco. Contra eles logo se despertou a inveja da serpente que espreitava a sua criação, apesar de que Lúcifer não pudera ver a formação de Adão e Eva como vira todas as outras coisas no momento de serem criadas. Não quis o Senhor mostrar-lhe a criação do homem, tampouco a formação de Eva da costela, e só os viu quando apareceram juntos.
Quando o demônio viu a admirável compleição da natureza humana, superior a todas as demais criaturas; a beleza das almas e também dos corpos de Adão e Eva; conhecendo o paternal amor que lhes votava o Senhor e que os fizera donos e senhores de toda a criação com promessas de vida eterna, enfureceu-se a ira deste dragão.
Não há língua que possa explicar a violência com que se agitou aquela besta feroz. Incitado pela inveja desejou tirar-lhes a vida e, como um leão o teria feito, se não fosse detido por outra força superior.
Por este motivo, estudava e procurava modo para os rebelar contra o Altíssimo e derrubá-los da graça divina.

O demônio começa a observar Adão e Eva

139. Enganou-se Lúcifer porque, embora desde o princípio o Senhor lhe houvesse manifestado que o Verbo far-se ia homem no seio de Maria Santíssima, não lhe declarou onde e como.
Por esta razão, lhe ocultou a criação de Adão e a formação de Eva, para que logo começasse a sentir a ignorância do mistério da encarnação e sua época. Como o ódio do demônio visava principalmente Cristo e Maria, começou a suspeitar se, por acaso, Adão teria saído de Eva, sendo ela a mãe, e ele o Verbo humanado. Esta suspeita crescia no demônio por sentir a força divina que o impedia atentar contra a vida deles. Mas, por outro lado, conheceu os preceitos que Deus lhes impôs. Descobriu-os ouvindo Adão e Eva falarem sobre isso.
Pouco a pouco se lhe desfazia a duvida. Pôs-se a escutar as conversas dos dois pais, sondando sua natureza, começando logo, como faminto leão, a rodeá-los (Pd 5,8), procurando entrada pelas inclinações que percebia em cada um deles. Antes, porém, de se desenganar totalmente, sempre vacilava entre o ódio contra Cristo e Maria e o temor de ser por eles vencido.
Acima de tudo temia a vergonha de ser subjugado pela Rainha do céu, por ser ela pura criatura sem divindade.

Queda de Adão e Eva

140. Reparando, pois, no preceito que Adão e Eva receberam, armado com a mentira, entrou a tentá-los, começando com todo o esforço a contradizer a divina vontade. Não atacou primeiro o homem, e sim a mulher, porque viu que sua natureza era mais frágil e delicada e tinha certeza de que ela não era Cristo. Além disso alimentava contra ela extrema indignação, desde  o sinal que havia visto no céu, e a ameaça que Deus lhe fizera por meio daquela mulher.
Tudo isto o levou primeiro a acometer Eva e não Adão.
Antes de se mostrar, insuflou-lhe muitos pensamentos, vivas e desordenadas imaginações para encontrá-la perturbada e preparada. Como noutra parte já escrevi sobre isto, não me alongo aqui para dizer quão forte e cruelmente a tentou. Basta, agora, para meu intento, saber o que dizem as santas escrituras: que tomou a forma de serpente (Gn 3,1) e falou a Eva que com ele imprudentemente entabulou conversa. De ouvi-lo e responder-lhe passou a lhe dar crédito, e daqui a violar o preceito. Por fim, persuadiu o marido que o violasse, para dano seu e de todos, perdendo eles e nós o feliz estado no qual os havia posto o Altíssimo.

Deus não abandonou o homem pecador

141. Quando Lúcifer viu a queda dos dois, e que a formosura interior da graça e justiça original de suas almas transformara-se na fealdade do pecado, foi incrível o alvoroço e triunfo que celebrou com seus demônios.
Não tardou, porém, seu desapontamento, porque conheceu quão misericordioso, ao contrário do que desejava, mostrou-se o amor divino com os dois delinqüentes. Deu-lhes tempo para fazer penitência com esperança do perdão e de sua graça, para o que iam se dispondo com dor e arrependimento.
Entendeu Lúcifer que lhes era restituída a formosura da graça e amizade com Deus, e estes efeitos da contrição enfureceram novamente todo o inferno.
A sentença que Deus fulminou contra os réus aumentou seu desgosto, por verificar que se enganara. Acima de tudo, o atormentou ouvir a renovação daquela ameaça que lhe fôra feita no céu: a mulher te esmagará a cabeça (Gn 3,15).

Bons e maus

142. Multiplicaram-se os filhos de Eva depois do pecado, e este passou a servir de distinção entre bons e maus, escolhidos e réprobos; uns que seguem a Cristo nosso Redentor e Mestre; outros a Satanás. Os escolhidos seguem seu Chefe na fé, humildade, caridade, paciência e todas as virtudes; e para vencerem são assistidos, ajudados e aperfeiçoados pela divina graça e dons que lhes mereceu o mesmo Senhor e Reparador de todos.
Os réprobos, porém, sem receberem estes benefícios e favores de seu falso caudilho, nem esperar outro prêmio mais que a pena e confusão eterna do inferno, seguem-no por soberba e presunção, ambição, torpezas e maldades introduzidas pelo pai da mentira e autor do pecado.

Abel e Caim, Jerusalém e Babilônia

143. Não obstante, a inefável benignidade do Altíssimo lhes deu sua bênção, para com ela crescerem e se multiplicar a estirpe humana (Gn 4,3). Permitiu, porém, sua altíssima providência, que o primeiro parto de Eva herdasse as primícias do primeiro pecado no injusto Caim, e o segundo figurasse no inocente Abel, o reparador do pecado, Cristo Senhor nosso.
Assim, começou a revelá-lo na figura de sua pessoa e na imitação de seu espírito. No primeiro justo se inaugurou a lei de Cristo e sua doutrina, da qual todos os demais haviam de ser discípulos; padecendo pela justiça (Mt 10,21-22), odiados e oprimidos pelos pecadores e réprobos, seus próprios irmãos. Em Abel estrearam-se a paciência, humildade e mansidão. Em Caim, a inveja e todas as maldades que cometeu em proveito do justo que as padeceu, e em prejuízo de si mesmo que aparentemente triunfou.
Começou deste modo o drama que o mundo apresentaria em seu crescimento, formado pelas duas cidades: Jerusalém para os justos e Babilônia para os réprobos, cada qual com seu chefe e cabeça.

O primeiro e o segundo Adão

144. Quis também o Altíssimo que o primeiro Adão, no modo de sua criação, fosse figura do segundo. Antes de Adão, lhe preparou o povo de todas as criaturas, das quais o fez senhor e cabeça.
Antes de enviar seu Unigênito deixou passar muitos séculos, para que encontrasse na multiplicação do gênero humano, povo de quem havia de ser cabeça, mestre, e rei verdadeiro. Deste modo, não estaria um momento sem povo e súditos.
Esta é a ordem e harmonia maravilhosa com que tudo dispôs a Divina Providência, sendo posterior na execução o que fora anterior na intenção.

O povo escolhido

145. Adiantando-se os tempos, para o Verbo descer do seio do eterno Pai e vestir nossa mortalidade, escolheu, separou e preparou um povo nobilíssimo, tão admirável que nem antes nem depois houve outro. Nele formou uma linhagem ilustre e santa da qual o Verbo descenderia segundo a natureza humana. Não me detenho em referir esta genealogia (Mt 1; Lc 3) de Cristo Senhor Nosso por não ser necessário, tendo-a escrito os evangelistas. Digo apenas – louvando quanto posso ao Altíssimo – que em muitas ocasiões me foi mostrado o incomparável amor que teve a seu povo, os benefícios que lhe concedeu, os sacramentos e mistérios que nele encerrou, manifestados depois em sua santa Igreja. Jamais adormeceu nem dormitou, quem se constituiu por guarda de Israel (SI120, 4).

As riquezas espirituais do povo de Deus

146. Suscitou profetas e patriarcas santíssimos, que em figuras e profecias nos anunciassem de longe o que agora possuímos. Devemos venerá-los, conhecendo o apreço que eles fizeram da lei da graça, as ânsias e clamores com que a desejaram e pediram.
A este povo, Deus manifestou seu ser imutável por muitas revelações a nós legadas nas Escrituras, onde se encerram imensos mistérios, a cujo conhecimento devíamos chegar pela fé.
Todos foram cumpridos e confirmados pelo Verbo humanado, deixando-nos segura doutrina, e para sua Igreja, o alimento das Sagradas Escrituras.
Ainda que os profetas e justos daquele povo não puderam ver a Cristo, corporalmente, foi o Senhor liberalíssimo com eles, manifestando-se-lhes em profecias e movendo-Ihes os afetos para que pedissem sua vinda e a redenção de todo o gênero humano.
A consonância e harmonia de todas estas profecias, mistérios e desejos dos antigos Padres, eram para o Altíssimo música suavíssima a ressoar no seu íntimo.
Com ela – a nosso parecer – entretinha a espera e apressava o tempo para descer ao convívio dos homens.

O Gênesis

147. Para não me deter muito no que o Senhor me deu a conhecer sobre este assunto e para chegar ao que vou procurando – as preparações que fez este Senhor para enviar ao mundo o Verbo humanado e sua Mãe Santíssima – farei uma descrição sucinta, seguindo a ordem das divinas Escrituras.
O Gênesis contém o que respeita ao exórdio e criação do mundo para a linhagem humana; a divisão das terras e povos; o castigo c a restauração; a confusão das línguas e origem do povo escolhido; sua descida ao Egito e outros muitos e grandes mistérios declarados por Deus a Moisés. Por intermédio dele chegamos a conhecer o amor e justiça que, desde o princípio, Deus usou para trazer os homens ao seu conhecimento e serviço, e indicar o que havia determinado fazer no futuro.

 

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