Estudo 3 – Mistica Cidade de Deus – Escola da Divina Vontade


MEDITAÇÃO DO 3 ESTUDO

Oportunidade da obra
9. A este meu desejo respondeu a Santíssima Virgem: – Minha filha, o mundo está muito necessitado desta doutrina, porque não sabe e não tem a devida reverência ao Senhor onipotente. Por causa desta ignorância a audácia dos mortais provoca a retidão de sua justiça que os aflige e castiga. Vi vem esquecidos de Deus, mergulhados nas trevas, sem saber procurar a salvação nem encontrar a luz. Isto é resultado da falta de temor e reverência que deviam ter pelo Senhor.

Estes e outros avisos deram-me o Altíssimo e a Rainha, para manifestar-me sua vontade a respeito desta obra. Pareceu-me temeridade e pouco amor a mim mesma, não aceitar a doutrina e ensinamento que esta grande Senhora prometeu dar-me, na descrição da sua vida santíssima. Tampouco julguei conveniente adiar para outro tempo, porque o Altíssimo manifestou-me ser este o oportuno e conveniente.

Sobre isto me disse estas palavras: – Minha filha, quando enviei meu Unigênito ao mundo, este se encontrava
no pior estado que havia tido desde o princípio, com exceção de alguns fiéis que me serviam.

A natureza humana é tão imperfeita que não se sujeitando a direção interior de minha luz e prática dos ensinamentos de meus ministros; não submetendo seu próprio ditame para seguir a Mim que sou caminho, verdade e vida (Jo 14, 6), guardando meus mandamentos e minha amizade, cairá logo em profundas trevas e inumeráveis misérias, de abismo em abismo, até obstinar-se no pecado.
Desde a criação e o pecado do primeiro homem até a lei que dei a Moisés, governaram-se pelas próprias inclinações, cometendo grandes erros e pecados (Rm 8, 13). Depois da lei os cometeram por desobedecê-la (Jo 7,19) e assim foram se afastando cada vez mais da verdade e luz, chegando ao maior esquecimento. Eu, com
paternal amor, enviei a salvação eterna (Ef 3, 4, 5) e o remédio para as incuráveis enfermidades da natureza humana. Com isto justifiquei a minha causa. Como, então, esperei o tempo no qual mais resplandecesse a misericórdia, quero agora fazer-lhes outra muito grande.

Este é o tempo oportuno para dela usar enquanto não chegar a minha hora, na qual o mundo se encontrará com tantas dívidas e processos, que conhecerão justo motivo de minha indignação. Nessa hora manifestarei minha ira, justiça, eqüidade e quão justificada está minha causa.

Chegou o tempo em que melhor se há de manifestar o atributo de minha misericórdia, e no qual desejo que meu
amor não fique inativo. Agora, quando o mundo chegou a tão infeliz época, depois que o Verbo se encarnou; quando os mortais se encontram mais descuidados do próprio bem e menos o procuram; quando mais se aproxima o fim de sua transitória vida, o pôr-do-sol do tempo, e a noite da eternidade para os reprovados; quando aos justos nasce o eterno dia sem noite; quando a maioria dos mortais jazem nas trevas da ignorância e das culpas, oprimindo os justos e zombando dos filhos de Deus; quando minha lei santa e divina é desprezada pela iníqua matéria de estado tão odiosa como inimiga de minha providência; quando os maus menos merecem; olhando para os justos que vivem neste tempo propício para eles, quero abrir a todos uma porta para entrarem em minha misericórdia. Acendo-lhes um farol para iluminar as trevas de sua cegueira, dou lhes um oportuno remédio se o quiserem usar para voltarem à minha graça.
Felizes os que o encontrarem (Pr 3» 13 e s.) e bem-aventurados os que conhecerem seu valor. Ricos os que acharem este tesouro, felizes e muito sábios os que o explorarem reverentemente, para compreender seus mistérios.
Quero que saibam quanto vale a intercessão daquela que foi remédio de suas culpas, dando em seu seio, vida mortal ao Imortal. Quero que lhes sirvam de espelho onde vejam suas ingratidões, as maravilhosas obras, que meu poderoso braço operou nesta criatura. Mostrar-lhes ei muitas das que realizei com a Mãe do Verbo, até agora ocultas por meus altos juízos.

Oportunidade das revelações 

Não os manifestei na primitiva Igreja, porque são mistérios tão magníficos que os fiéis teriam ficado a estudá-los
e contemplá-los, quando era mais necessário estabelecer a lei da graça e o Evangelho.
Ainda que ambas as coisas teriam sido compatíveis, a ignorância humana poderia ficar confusa, quando ainda estava tão no princípio a fé na Encarnação, Redenção e preceitos da nova lei evangélica.

Por isso, disse o Verbo humanado a seus discípulos na última ceia: “Muitas coisas teria para vos dizer, mas agora não estais preparados para recebê-las” (Jo 6, 12). Na pessoa deles falou ao mundo inteiro que ainda não estava em condições de receber o conhecimento dos mistérios da Mãe, antes de estar estabelecida a graça e a fé em seu Filho.
Agora a necessidade é maior e ela me obriga mais do que o merecimento dos homens. Se me empenhassem reverenciando, crendo e conhecendo as maravilhas que em si encerra a Mãe de piedade, e se de coração solicitassem sua intercessão, o mundo poderia melhorar.
Não quero deixar de mostrar-lhes esta mística cidade de refúgio. Descreve-a delineando-a como conseguir tua limitação. Não quero que esta descrição de sua vida componha-se de opiniões e hipóteses, mas seja a verdade certa. Os que têm ouvidos para ouvir, (Mt 11,15) ouçam; os que têm sede (Ap 22,17) venham às águas vivas e deixem as cisternas rachadas, os que desejam luz sigam-na até o fim – Palavra do Senhor Deus Onipotente.

Estas são as palavras que me disse o Altíssimo na ocasião que referi.
Satisfazendo a obediência que assim me ordena, explicarei no capítulo seguinte, para deixar esclarecido em todos os demais, o modo como recebo esta doutrina e luz; como contemplo o Senhor e as inteligências e misericórdias deste gênero me são comunicadas e descreverei adiante.

CAPITULO 2
EXPLICAÇÃO DO MODO COMO O SENHOR MANIFESTA
À MINHA ALMA ESTES MISTÉRIOS E A VIDA DA RAINHA. ESTADO E M QUE SUA MAJESTADE ME COLOCOU.

Para deixar declarado de uma vez, o modo como o Senhor manifesta-me estas maravilhas, pareceu-me conveniente escrevê-lo no princípio deste capítulo, onde explicarei como puder e me for concedido.

Temores espirituais
Desde que tive uso da razão, notei haver recebido do Senhor uma graça que julgo a maior que sua liberal mão me
concedeu: um íntimo e grande temor de perdê-lo. Isto me tem incitado a desejar sempre, e praticar e pedir ao Altíssimo, o melhor e mais seguro.
O temor dos juízos de Deus, o contínuo receio de perder a amizade do Todo-poderoso e a incerteza de nela estar,
é um dardo com que Ele transpassou minha carne (SI 118, 120). Meu pão dia e noite tem sido as lágrimas (SI 41, 4) causadas por esta solicitude.
Nestes últimos tempos, quando os discípulos do Senhor que professam virtude devem ficar ocultos, sem se manifestar, esta inquietação me induziu a fazer grandes petições a Deus e a solicitar a intercessão da Rainha e Virgem pura, suplicando-lhe com todo meu coração me guiem e dirijam por um caminho reto e escondido
aos olhos dos homens.

Visão de Deus
14. A estas instantes súplicas me respondeu o Senhor: – Não temas nem te aflijas, que eu te darei um estado e caminho de luz e segurança, de minha parte tão oculto e estimável, que somente o autor dele o conhecerá. Toda exterioridade sujeita a perigo te faltará desde hoje, e teu tesouro ficará escondido. De tua parte guarda-o e conserva-o levando vida perfeita. Eu te porei numa senda oculta, clara, verdadeira e pura; caminha por ela.
Desde essa ocasião, senti-me interiormente mudada e num estado muito espiritualizado. Ao entendimento foi dada
nova luz, sendo-lhe comunicada e infundida ciência, pela qual conhece o ser e operações de todas as coisas em Deus, na medida em que a vontade divina lhe quer manifestar.

Esta inteligência e luz que esclarece (Sb 7,22) é santa, suave e pura, sutil, aguda, nobre, certa e límpida; faz amar o bem e reprovar o mal; é um vapor da virtude de Deus e simples emanação de sua luz. É como espelho para o entendimento, e com a parte superior da alma e olhar interior vejo muito. Conhece-se que o objeto, com a luz que dele reverbera, é infinito, ainda que a vista seja limitada e curto o entendimento.

Èsta visão é como se o Senhor estivesse assentado em trono de grande majestade, onde dentro dos limites da vida
mortal se conhecem seus atributos com distinção. Cobre-o um como cristal puríssimo e através dele se entrevêem estas maravilhas e perfeições de Deus.
Grande é a clareza e distinção, não obstante aquele intermédio, véu ou cristal que impede vê-lo inteira, imediata e intuitivamente.
A impossibilidade de ver o que está oculto, porém, não é penosa, mas admirável para o entendimento. Entende
que o objeto da visão é infinito, enquanto é limitado quem o contempla. Fica lugar para a esperança de afastar-se aquele véu e cair o intermédio, quando a alma se despir da mortalidade do corpo, (2 Cor 5,4-6) se
tanto merecer.

Efeitos da visão de Deus

Neste conhecimento há dois graus ou modos de visão, conforme a vontade divina quer conceder, pois é espelho
voluntário. Às vezes se manifesta mais claramente, outras menos; ora se mostram uns mistérios ocultando outros, mas sempre grandes.
Esta diferença depende da disposição da alma. Se não está com toda quietude e paz, ou cometeu alguma culpa
ou imperfeição, por pequena que seja, não consegue ver esta luz no modo que digo, pelo qual se conhece o Senhor com tanta claridade e certeza, que não deixa dúvida alguma no que se entende. Entretanto, a percepção da presença de Deus é anterior e maior do que o conhecimento de quanto Ele comunica. Aquela percepção, produz
forte, suave e eficaz energia para amar, servir e obedecer ao Altíssimo.

Nesta claridade compreendem-se grandes mistérios: quanto vale a virtude e quão preciosa coisa é possuí-la e praticá lá; entende-se a sua perfeição e segurança; sente-se uma força que arrasta para o bem,
faz oposição e combate o mal e as paixões, e muitas vezes as domina.
Se a alma goza desta luz e visão sem a perder, não é vencida (Sb 7, 30) porque lhe dá ânimo, fervor, segurança e
alegria. Cuidadosa e solícita convida e eleva, dá presteza e brio, atraindo a si a parte superior da alma sobre a inferior. Até o corpo se toma leve e como espiritualizado durante esse tempo, suspendendo seu gravame e peso. P

Transformação em Cristo

Sentindo a alma estes doces efeitos, com amoroso afeto diz ao Altíssimo:
– Leva-me após ti (Ct 1, 3) e correremos juntos. Unida com seu amado não sente as operações terrenas, e deixando-se levar pelo odor destes perfumes de seu querido, vem a ficar mais onde ama do que onde anima. Abandona a parte inferior e quando para ela volta é para aperfeiçoá-la, reformando e degolando os animais apetites
das paixões. Se por acaso querem se revoltar, expulsa-os da alma com rapidez, pois já não sou eu que vivo (Gl 2,20), mas é Cristo que vive em mim.

Cristo vivendo na alma

Sente-se aqui, de certo modo, em todos esses movimentos e santas operações, a assistência do Espírito de Cristo
que é Deus e vida da alma (ljo 5,11-12).
Percebendo-se no fervor, no desejo, na luz, na eficácia para agir, uma força interior que somente Deus pode produzir.
Sente-se na virtude desta luz e no amor que produz, uma voz interior contínua e viva, que prende a atenção a tudo o que é divino e abstrai do que é terrestre.
Em tudo isto manifesta-se viver Cristo em mim, com sua virtude e luz que sempre brilha nas trevas. E propriamente
estar nos átrios da casa do Senhor, porque a alma se encontra onde se reflete a claridde da lâmpada do Cordeiro (Ap 21,23).

A ação da graça

Não digo que a luz seja total.
Mas sendo apenas uma parte, já é um conhecimento além das forças e capacidade da criatura.
Para esta visão o Altíssimo fortalece o entendimento, dando-lhe certa qualidade de luz que proporcione esta faculdade ao conhecimento superior às suas forças. Isto também é compreendido pela certeza com que se crêem ou se conhecem as demais coisas divinas.

Entretanto, a fé também acompanha a certeza, e neste estado mostra o Todo-poderoso à alma, o valor desta ciência e luz que lhe infunde. Sua claridade (Sb 7,10-13) não pode ser extinta, e todos os bens me vieram juntamente com ela, e por suas mãos uma honestidade de grande preço.
Esta lâmpada vai em minha frente, dirigindo meus caminhos; aprendi-a sem intenções reservadas (Idem 8, 16, 18),
desejo comunicá-la sem inveja e não escondo suas riquezas; é participação de Deus, e seu uso é bom deleite e alegria.
Num momento ensina muito, conquista o coração, e com força poderosa o afasta da falsidade que, vista nesta luz,
está repleta de imensa amargura. A alma se afasta do que é transitório, e correndo se refugia na sagrada e eterna verdade, entra na adega (Ct 2,4) do capitoso vinho, onde o Altíssimo ordena em mim a caridade.
Obriga-me a ser paciente (ICor 13,4) e sem inveja; benigna sem ofender a  ninguém; a não ser soberba nem ambiciosa; que não me ire nem pense mal de ninguém; que tudo sofra e tolere; sempre clama (Pr 8,1) e admoesta-me interiormente com poderosa força, para que faça o mais santo e puro, instruindo-me em tudo. E, se falto, ainda em pequenas coisas, repreende-me sem nada deixar passar.

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